Conversas

Bill Gates, o homem que quer salvar o mundo

Foi fantástico fazer programação, gerir a Microsoft e ganhar 98 mil milhões de dólares quando tinha 40 anos, mas não se compara ao que Bill Gates faz agora ao salvar milhões de vidas. E é um homem sensível que pode chorar com facilidade. Fomos à Etiópia com o filantropo, a fim de descobrir o que realmente o motiva – e o que faz para relaxar após um período de trabalho ou de tensão.

Bill-gates-o-homem-que-quer-salvar-o-mundo Foto: Getty Images
25 de outubro de 2019 | Alice Thomson
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Bill Gates não põe o cinto, o que me faz sentir preocupada com a sua segurança à medida que o carro, escoltado por forças militares, acelera ao longo das ruas desimpedidas de trânsito de Adis Abeba. Mas como os seus assessores não se apercebem ou optaram por não lhe chamar a atenção para o facto, decido também não colocar o meu. As cabras foram levadas para fora de vista e o pavimento varrido. Porém, Bill Gates não repara porque não olha pelas janelas. Está a fornecer-me factos, dados e números sobre a população e a explicar como poderia salvar muito mais pessoas neste continente. Os líderes africanos encontraram-se na Etiópia para participarem na 32.ª Cimeira da União Africana. Dos Land Rovers brancos, com o dístico VVIP e bandeiras nacionais na capota dos carros de cada comitiva, saem presidentes e primeiros-ministros cobertos de medalhas e de galões. Os guarda-costas olham fixamente em torno de si, os fotógrafos gritam e toda a elite do continente parece ter convergido para os degraus do recém-construído edifício da União Africana. Há bandas a tocar, mulheres a dançar e 54 bandeiras agitam-se no ar seco e quente. Depois chega Bill Gates, um discreto americano de 63 anos, que enverga uma camisola com decote em forma de V e calça loafers, e todos se apressam para o cumprimentar.

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Bill Gates é o primeiro ocidental não político convidado pela União Africana para discursar, não uma, mas duas vezes, e eu fui convidada a "entrar na festa". O segundo homem mais rico do mundo vale 100 mil milhões de dólares, valor superior ao do PIB do conjunto de alguns dos países aqui presentes. Porém, não é a sua caridade ou celebridade que eles aclamam, antes as suas recomendações. Em África ele é considerado um homem bom, melhor do que alguns "ocidentais bem-intencionados mas pouco realistas" ou "salvadores brancos" que querem diminuir o peso do seu sentimento de culpa por serem detentores de fortunas imensuráveis. Kagame, o Presidente do Ruanda, que preside à cimeira, diz-me: "Não queremos brancos condescendentes a censurar-nos quando agimos de forma errada. Mr. Gates pretende resolver os nossos problemas na área da saúde e das tecnologias de informação. Toda a gente gosta de o ter por perto."

Conheci o pilar do apoio tecnológico a África, no seu quartel-general de Londres, uma semana antes para falarmos do continente que visitou já depois de ter ganhado milhares de milhões de dólares com a Microsoft nos anos 90. Melinda, que tem 54 anos e com a qual está casado há 25, obrigou-o a participar num safari no Quénia quando estavam noivos: "Eu odiava férias e os animais não me interessavam muito", confessa Bill Gates. Estiveram numa aldeia masai, na qual se aperceberam da enorme diferença entre a altamente tecnológica costa oeste dos EUA, onde viviam, e os problemas dos habitantes daquela pequena povoação.

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Como nenhum deles queria comprar um iate e em breve iriam viver numa casa de 125 milhões de dólares, em Seattle, o casal estava determinado a ajudar. A Fundação Bill & Melinda Gates foi criada com o apoio de Warren Buffett, o amigo multimilionário e parceiro do póquer de Bill Gates, que "ainda aparece para jantar, lavar a louça e verificar como está a ser usado o dinheiro dele". Bill Gates admira a China pela sua impressionante taxa de crescimento, contudo é a África que o fascina. "A África é impressionante porque é o mais jovem dos continentes. Tem de enfrentar mais desafios do que qualquer outro, mas é, de forma definitiva, um copo meio cheio", declara.

Inatamente competitivo, não pode deixar de referir que ele e Melinda terão ajudado a evitar 10 milhões de mortes no futuro devido à sua colaboração com a Gavi Alliance, uma parceria de entidades públicas e privadas cujo objetivo é melhorar o acesso à vacinação nos países pobres e a salvar 27 milhões de pessoas graças ao Fundo Global contra a sida, a tuberculose e a malária. Gates admite não conhecer alguém que tenha salvado mais vidas. As vacinas são tão simples, eficazes e baratas que se tornaram uma obsessão para ele. "Para mim, o grande paradoxo é que as vacinas existem e que, apesar disso, haja crianças que continuam a morrer de doenças provocadas pelo rotavírus quando podíamos ajudar facilmente." Não acredita que a Internet vá salvar o mundo, nem tão-pouco que carros sem motorista ou viagens turísticas ao espaço o façam, "mas erradicar doenças pode fazê-lo", razão pela qual mudou o foco da sua vida.

É difícil criticá-lo por pensar deste modo. É necessário cuidado e habilidade para entrevistar Bill Gates porque o que está a fazer é tão obviamente correto ao disponibilizar não apenas a sua riqueza, mas também o seu tempo para salvar vidas, que pareceria mesquinho destacar eventuais falhas menores e parece-me que ele não está habituado a que lhas apontem. Poder-se-ia acusá-lo de ser demasiado seco e analítico. Contudo, na minha opinião, esforça-se por não se mostrar muito arrogante.

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Bill Gates sabe que não precisa de demonstrar que tem muito dinheiro. Apenas Jeff Bezos, da Amazon, é mais rico do que ele. Também não se importa muito com bens materiais – é um dos poucos multimilionários da indústria da tecnologia que frequentou escolas privadas, o pai era um advogado de sucesso e teve uma infância confortável, em Seattle, ainda antes de ter começado "a brincar" com computadores. Sente-se feliz por ir à hamburgueria drive-thru, em Seattle, para encomendar um hambúrguer e batatas fritas por sete dólares e usa um relógio de dez. Mas não consegue deixar de mencionar as necessidades que África tem de sopa ou de cubos para fazer caldo. Em Davos, na Suíça, em fevereiro deste ano, enquanto outros CEO se mantinham a trabalhar pela Internet ou iam a festas, ele estabeleceu contactos com homens da indústria. "Era uma oportunidade para pôr micronutrientes nos cubos para caldo", diz. "São muito usados em África, mesmo nas casas mais pobres, portanto, é uma forma barata de melhorar a saúde de quem os consome."

Quando voltei a encontrar-me com ele, na Etiópia, tinha conseguido arranjar tempo na sua agenda superpreenchida para cortar o cabelo e visitar dois outros continentes, sem se dar uma folga. Fui a duas clínicas, às quais a sua fundação doou os medicamentos e vacinas, para falar com a equipa médica, mas como Bill Gates não procura a gratidão dos pacientes, evita as selfies destinadas a serem visualizadas pelos seus 47 milhões de seguidores no Twitter e as sessões fotográficas com bebés, pretendendo antes ver resultados, não foi comigo e ficou a trabalhar. É este o homem que admite, como CEO da Microsoft: "Eu conheço de cor o número de todos os meus empregados de modo que posso saber a que horas cada um sai do local de trabalho." Enfurecem-no as manchetes sobre África que só mencionam os infelizes órfãos de olhos esbugalhados ou os projetos de ajuda insinceros. "O mundo age de acordo com a narrativa que é contada e, irritantemente, a história de uma vida salva ou de uma pequena quantia gasta de forma pouco escrupulosa é muito melhor do que a de milhões de vidas salvas. É muito mais evocativa", reconhece. "Se eu saltasse para um rio e impedisse uma criança de se afogar, essa situação seria levada mais a sério do que o salvamento de milhões de vidas."

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Admite que a sua mulher, Melinda, é adepta de histórias de vida. Quando a entrevistei, em 2017, ela conversou alegremente sobre a sua vida sexual para explicar a importância da contraceção. Bill Gates fica desagradado com estas situações, mas sublinha que não se limita a pensar em dados e que se sente afetado por casos individuais de desespero. "Se eu estiver sentado a ouvir uma mulher que diz que teve de se entregar à prostituição para sustentar os filhos, claro que me sinto abalado." Costuma chorar? "Eu choro. Se me contam uma história comovente, eu choro mais do que a maioria das pessoas. Ou se estou a ver um filme ou algo do género. Certa noite, quando estava a ler Um Gentleman em Moscovo, comecei a chorar. Como ia cem páginas à frente de Melinda, ela disse ‘Oh, não!’ porque pensou que determinada personagem do romance tinha morrido." Porém, declara que a comoção não tem qualquer utilidade e parece desconfortável perante a perspetiva de abraçar aqueles que ajudou. "Há sete mil milhões de pessoas no mundo e o dia tem apenas 24 horas. É impossível visitá-las a todas e tentar saber o que está mal. Eu tenho de me assegurar de que os dados estão corretos quando me sento com grupos de mulheres numa aldeia remota da Índia. As suas histórias de vida são valiosas, mas as minhas ações são baseadas no que dizem as estatísticas."

Explica melhor: "No mundo morrem anualmente seis milhões de crianças antes de completarem os cinco anos. Se lhes queremos demonstrar afeto de uma forma significativa não podemos fazê-lo indo de aldeia em aldeia e falando com todas as pessoas. O mundo tem a inteligência e os recursos para reduzir aquele número a metade, recorrendo a programas de vacinação. Custa menos do que o que gastamos com a alimentação dos nossos cães ou com os medicamentos para combater a calvície." Bill Gates não é um homem vaidoso e eu penso que, genuinamente, ele não compreende porque gastam as pessoas dinheiro com a sua aparência em vez de o investirem numa vacina ou em projetos de investigação e de educação.

Entramos no local onde vai fazer a primeira conferência e, sempre a sorrir, consegue discutir com os intervenientes assuntos de saúde durante três horas. Eu adormeci. A sua performance é digna da rainha de Inglaterra, mas ele sente-se genuinamente fascinado pelo assunto. Por fim, sobe as escadas e vai para a sua sala de reuniões – o spa e a piscina continuam por visitar. Gostaria de dar um mergulho? "Não." E uma massagem? "De modo algum!" Só quer um quadro branco, um computador e papel, a fim de desenhar alguns gráficos para me mostrar – e uma lata de Diet Coke.

Quando o mago da tecnologia começou a salvar vidas no sudeste asiático e em África, alguns dos seus amigos ricos com quem se cruzava em festas perguntaram-lhe se ele acreditava que era uma boa ideia. "Eles consideravam que quanto mais pessoas sobrevivessem mais depressa se esgotariam os recursos naturais, dado que era preciso alimentá-las. Mas quando conhecemos as situações de perto, verificamos que em todas as sociedades os pais ajustam o número de filhos que querem ao verem as crianças sobreviver. Começam a acreditar na possibilidade de que basta terem um filho para cuidar deles quando forem velhos."

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Paradoxalmente, descobriu que a redução da taxa de mortalidade infantil era a ferramenta mais poderosa para abrandar o crescimento populacional em África. "Isto permitiu-nos debruçarmo-nos sobre a questão da malária, do VIH e da poliomielite. Muitas destas doenças, mesmo que as crianças lhes sobrevivam, impedem que o seu corpo e cérebro se desenvolvam, sobretudo nos casos de malnutrição. Os chineses eram mais baixos do que os povos ocidentais na década de 1990 e agora são um pouco mais altos. É um progresso."

Houve quem o advertisse para o facto de que melhorar o nível de vida das pessoas iria aumentar o fluxo de imigrantes ambiciosos para o Ocidente. Bill Gates concorda. "Pessoas que vivem em extrema pobreza, exceto nos casos de guerras violentas e de grandes fomes, não se deslocam muito. Quando começou a Guerra Civil na Síria, os primeiros a abandonarem o país eram médicos, advogados, arquitetos… No curto prazo, as pessoas que pensam viajar para lugares longínquos, adaptarem-se e integrarem-se são as que possuem mais instrução."

Contudo, explica, a única solução para a imigração indesejada passa por assegurar que o continente africano se torne atrativo para criar uma família. "A população de África ronda um milhar de milhões de pessoas e as previsões para 2100 apontam para 4 mil milhões", diz. "No fim do século, as cinco cidades mais populosas serão africanas. Portanto, temos de transformar o continente africano num bom local para se viver e rapidamente."

Fica impaciente com o cinismo que envolve os donativos com fins beneficentes na Grã-Bretanha. "O povo britânico demonstra a sua grande generosidade com atividades como o Red Nose Day e o Comic Relief, mas os britânicos também criticam a ajuda de uma forma que nenhum outro país consegue. É estranho. Existe a sensação de que o dinheiro com que contribuem para essas ações está a ser desperdiçado, mas não é verdade – basta olhar para o aumento da esperança de vida ou da literacia. Em África, nos anos 80, apenas 20% das pessoas eram alfabetizadas e agora são 75%. Na década de 1970 morriam três vezes mais crianças do que hoje. A maior parte das pessoas não sabe nada acerca da África. Quando há estabilidade tudo pode ser solucionado."

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Entramos no carro para irmos a um jantar no qual ele ficará sentado, como convidado de honra, entre dois presidentes, mas a música está tão alta durante o evento que Bill Gates reconhece que mal consegue ouvir. Ansioso por ir para a cama após dezasseis horas de trabalho, ainda assim espera para poder ter uma conversa tranquila com o Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa. Nelson Mandela era um amigo comum.

Na agenda de Bill Gates está escrito, a sublinhado, que ele precisa de nove horas de sono. O que o mantém acordado à noite? O temor de uma pandemia, responde. "Há cem anos houve uma grande epidemia de gripe. As pessoas viajam mais atualmente e, por conseguinte, a velocidade de propagação é mais rápida se alguém tiver uma doença transmitida por via respiratória. O número dos afetados seria terrível."

Na manhã seguinte, dirige-se ao edifício da União Africana a fim de ouvir, educadamente, durante horas, os longos discursos de outras pessoas. De certa forma, Bill Gates é mais do que um homem bom em África. É um missionário do século xxi: não tenta converter ninguém a uma religião ou a um credo, seja o catolicismo ou o capitalismo. É apenas um tecnocrata que espera resolver os erros e pontos fracos, como fez na Microsoft.

Insinuo que o seu fracasso reside no facto de não ter conseguido convencer muitos a segui-lo. Ao ouvir pronunciar a palavra "fracasso" ele fica momentaneamente irritado, talvez esquecido de que escreveu nos seus blogues que, por vezes, abraçava causas condenadas ao fracasso – é óbvio que não se sente confortável com a palavra. "Quando nos envolvemos tanto, somos levados a perguntar-nos porque não o fazem os outros também", acaba por dizer. "Mas acredito que deve ser feito de forma voluntária." Bill Gates pagou impostos num valor acima dos 10 mil milhões de dólares. "Eu devia ter pagado mais", declara, num tom de quem apresenta desculpas. "Eu sigo escrupulosamente a lei, mas penso que as coisas deviam ser mais progressivas."

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Por fim sugere que o preocupante é os ricos ficarem cada vez mais ricos, mas a sua filantropia não acompanha essa progressão. Aos 31 anos de idade era, devido ao seu próprio esforço, o multimilionário mais jovem do mundo e agora diz: "É fascinante ouvir, pela primeira vez na minha vida, as pessoas dizerem: ‘Deveria haver, sequer, multimilionários?’"

Acha que tem a ver com a ascensão do populismo? Ele aquiesce. "Trump, o Brexit, os coletes amarelos – grupos de pessoas que se sentem abandonadas, desrespeitadas… E o facto de, depois da crise de 2008, ninguém ter sido enforcado e de alguns dos ricos terem ficado, na realidade, ainda mais ricos, enquanto todos os outros sofriam." Ri-se quando eu lhe pergunto se os muito ricos estão cientes da raiva que provocaram e, no seu caso, pelo facto de se relacionar sobretudo com alguns multimilionários. "Não somos todos grandes amigos", sublinha.

Mostra-se relutante em falar do Brexit porque não analisou os dados em profundidade e admite, meramente, que "há uma onda secular de políticos populistas, quer da extrema-esquerda, quer da extrema-direita, que se associaram aos sentimentos nacionalistas, anti-imigrantes e aos que se opõem à originalidade do pensamento, ignorando que os Estados Unidos forneceram benefícios incríveis".

Teme que haja demasiada negatividade em relação aos governos, aos "cidadãos de parte alguma" e aos peritos, e acha que isso é ilógico. O mundo, segundo acredita, dado que é um otimista obsessivo, está a melhorar rapidamente em todas as áreas. "Eu vejo o paradoxo de um ponto de vista objetivo. Prefere ser uma mulher trabalhadora de agora ou de há vinte anos? Prefere ser uma pessoa homossexual de agora ou de há vinte anos? Vejo que houve progresso. Vamos curar a doença de Alzheimer, vamos combater a obesidade e a diabetes. Os jovens já bebem menos. Iniciam a vida sexual mais tarde. Relacionam-se melhor com os pais. A gravidez entre as adolescentes diminuiu."

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Por vezes, os três filhos de Bill Gates – Jennifer, de 22 anos, Rory, de 19, e Phoebe, de 16 – viajam com ele. "É Melinda que se encarrega da maior parte dos cuidados parentais e tenta que cada um dos filhos fique com uma família [carenciada]. Levei-os a bairros da lata a que não queriam ir." Sempre que chegam a um novo destino, o pai insiste em que eles conheçam o PIB do país e a sua população. "Eu forneço-lhes estatísticas básicas e depois levanto questões. Ensino-os a observar os países que considero interessantes."

Diz que os filhos devem perceber a sorte que têm. Não por causa da sua riqueza, uma vez que só herdarão 10 milhões de dólares cada um, devido à promessa que os pais fizeram de doar a maior parte do seu espólio, mas porque tiveram acesso à educação, a conversas com adultos inspiradores e, ao contrário dele quando era criança, à Internet. O cofundador da Microsoft não condena o mundo online, nem na qualidade de pai. A sua paixão quando andava na escola, em Seattle, eram os computadores e as revistas de negócios. "Invejo os meus filhos. O Rory pode ver online o veredito de um juiz e quando se senta à mesa para jantar sabe muito mais do que eu. Isso é poder. Os meus filhos fazem-me playlists e um dos benefícios das redes sociais é a divulgação de informação. Pode ser um meio através do qual se lançam ataques a pessoas e grupos, mas serão mais importantes do que o benefício de as famílias poderem manter-se em contacto à distância?"

Bill Gates já geriu a maior empresa de tecnologia do mundo – fundou a Microsoft com Paul Allen, em 1975 –, mas não sente falta dessa atividade. "Quanto somos adolescentes ou estamos na casa dos 20, 30 ou 40 anos a fazer pessoalmente a programação, gerir uma plataforma de software e dizer às pessoas que o computador pessoal foi a melhor coisa que alguma vez aconteceu, para mim, foi simplesmente perfeito. Mas não olhava para o mundo no seu todo. Depois, aos 38 anos, casei-me e essa situação deu início a um novo processo porque Melinda desempenhou um papel fundamental e tivemos filhos. Agora quando falo com cientistas e vou a África, é mais divertido para mim, e também dou melhor uso aos meus interesses e recursos individuais. Portanto não penso: ‘Como eu gostava de estar sentado a fazer programação e a dizer aos outros que o seu trabalho é lixo comparado com o meu.’ Melhorei as minhas competências como gestor e sou um comunicador muito melhor."

Penso que se refere ao facto de, no passado, costumar gritar com os seus colaboradores, limitando-se agora a enviar ocasionalmente e-mails concisos. Podia ter entrado no mundo da política. É óbvio que não suporta o Presidente Trump – e não apenas por este não ser um homem de factos –, mas também não o insulta, dado que agora é mais diplomático. "Os políticos têm prazos de validade limitados e eu não", explica. "Não preciso de fazer campanha ou angariar fundos. Os políticos têm de ter conhecimentos sobre cinquenta assuntos. Eu escolhi saber muito sobre poucas coisas e consigo obter resultados mais depressa." Seria interessante transformar um país inteiro. "Talvez, se fosse um pequeno país, mas seria preciso continuar a olhar para o panorama geral. Não gosto de multitarefas."

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A filantropia, insiste, é um prazer. "É mais excitante do que umas férias. Não é apenas estimulante, mas também interessante ir a reuniões sobre a malária e ouvir alguém dizer: ‘Vamos falar de vacinas, riscos e possibilidades.’ Tive a sorte de ter duas carreiras. O facto de fazer algo que não tem em vista o lucro nem está voltado para o mercado torna tudo mais relaxante."

Bill Gates tem apenas 26 minutos antes de o seu avião levantar voo e está muito longe do aeroporto, mas parece imperturbável enquanto o carro acelera ao longo do caminho. Como faz para se manter sereno? "A Melinda e eu meditamos todos os dias", responde. "Mas não nos sentamos no chão de pernas cruzadas, mas em cadeiras ao lado um do outro."

A sua família é cada vez mais importante. Bill e Melinda têm escritórios contíguos, em Seattle, e costumam ler várias horas por dia e veem a Netflix. Ele ajuda nas tarefas domésticas e leva os filhos adolescentes a competições desportivas. De vez em quando, Bill Gates gasta uma soma astronómica num carro antigo, num manuscrito de Leonardo da Vinci ou comprando mais um rancho, contudo tem consciência de que isso prejudica as suas causas. Justifica a compra do jato privado com o argumento de que torna mais fáceis as deslocações entre continentes. Chegamos à zona privada do aeroporto dois minutos antes de levantar voo. "Foi uma boa viagem", diz-me, antes de se dirigir para a passadeira vermelha, a caminho do avião. Os motores já foram ligados. Dou-me conta de que, durante a estadia, quase não saiu das salas com ar condicionado, nem dos veículos que o transportavam. Nunca sentiu o calor do sol. A bagagem já foi despachada e os seus livros já estão a bordo. Vai ler e dormir. Nenhum dos seus assessores segue no mesmo avião. Imagino que o consideram demasiado intenso e que precisa de descansar. Está sozinho parecendo um rapazinho nerd depois do fim de uma aventura.

Regresso ao centro da cidade num carro sem tubo de escape, a fim de me encontrar com o presidente Kagame. Bill Gates, diz, foi um convidado exemplar e merecia receber um Prémio Nobel. "Como pode o mundo retribuir-lhe tudo o que faz? Sacrificou por África não apenas o seu dinheiro, mas também o seu tempo, férias com a família e até a sua saúde. Parece mais velho, agora. Mas é um padrinho deste jovem continente."

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Exclusivo The Sunday Times

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