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Visita à Fabricaal. O savoir-faire, as lãs de ovelhas merino e o Alentejo

Os últimos anos da atividade da Fabricaal acabam de se converter num livro formato coffetable, com fotografias de Cátia Castel-Branco, para guardar e apreciar com tempo e calma. Fomos à fábrica, em Reguengos de Monsaraz.

Tapete às riscas a secar ao sol, em frente a um campo de flores e ao céu azul Foto: Cátia Castel-Branco
14 de outubro de 2026 | Rita Silva Avelar
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O Alentejo guarda tradições ancestrais. Cada região transporta consigo um conjunto de heranças culturais que atravessam séculos, muitas delas ligadas às manualidades. O savoir-faire é, de facto, o segredo da tão bem preservada Fábrica Alentejana de Lanifícios, em Reguengos de Monsaraz, comprada em 2020 por António Carreteiro, Luís Peixe e Margarida Adónis, depois de estar nas mãos da holandesa Mizette Nielsen desde 1977. António, Margarida e Luís vieram revitalizar o negócio, continuando o trabalho de inovação e prestígio iniciado pela anterior proprietária, e na verdade por todos os seus antecedentes. Afinal, esta é uma fábrica com uma história de quase 100 anos. Chegamos ao nº 79 da Rua dos Mendes à hora combinada. Foi aqui que, nos anos 30 do século passado, António Durão instalou uma oficina para que mestres e aprendizes pudessem trabalhar. Depois, José Rosa, já na década de 50, apelidaria a fábrica do nome que tem hoje, reunindo na oficina a totalidade das pequenas indústrias de mantas de Reguengos de Monsaraz, tendo também sido ele quem aperfeiçoou as técnicas de produção, o design e a qualidade e em 1958 acabou por ganhar a Medalha de Ouro na Exposição Universal de Bruxelas (lançando a marca para o mercado internacional). Foi um grande mestre e preservou a fábrica até à passagem para Nielsen.

Há 9 funcionários na Fabricaal. Foto: Cátia Castel-Branco
Visita à Fabricaal em Reguengos de Monsaraz Foto: Cátia Castel-Branco

Tocamos à campainha e esperamos por Luís Peixe, que nos recebe. António Carreteiro está no tear e Margarida divide a sua vida entre Reguengos e Lisboa. Luís vem da área da Engenharia das Telecomunicações, Margarida é produtora de cinema e António fez de tudo um pouco: stylist, maquilhador profissional, criativo por natureza é o único natural de Reguengos de Monsaraz e é ele quem atualmente desenvolve a maioria dos padrões. A primeira secção é a loja, e logo de seguida a sala das exposições. “Esta sala é onde está a nossa história. Esta é uma arte muito antiga na região, os registos comuns vêm do século XVI, mas há registos da existência de mantas alentejanas desde o século XIV. Há um documento de uma herança, de um senhor que faleceu, e que no rol de coisas de herança está lá a manta alentejana”, conta o sócio lisboeta. Durante a hora em que visitamos a fábrica, Luís abrirá a porta a pelo menos mais três famílias de visitantes (a visita custa €5), duas delas estrangeiros. “As mantas eram produzidas em muitas zonas aqui no Alentejo, sendo que foi Reguengos que as tornou mais comerciais, digamos assim, porque sempre foi uma zona com muita lã, vinda de ovelhas de raça merino”, uma raça introduzida, acredita-se, pela dinastia berbere Beni-Merines, presente na Península Ibérica durante o período dos Almóadas. “No séc. XIV, artesãos em casa começaram a fazer o fio a partir da lã e começaram a tecer mantas, que eram as mantas para os pastores, que servem como agasalho, mas também servem para eles se protegerem do sol durante o verão. A lã era conservada em azeite para fazer as mantas impermeáveis, e não havia tingimento. Depois, por volta do século XVIII, começaram a tingir a lã. Obtinham as cores a partir das cores da região. As peças passaram a ser muito mais populares porque passaram a ser usadas para decoração das casas”, recorda-nos. Os padrões tradicionais e a confeção manual em lã são dois aspectos inegociáveis da produção destas peças. 

Fabricaal em Reguengos de Monsaraz. Foto: Cátia Castel-Branco
Mulher tece em tear na Fabricaal, em Reguengos de Monsaraz. Foto: Cátia Castel-Branco

Esta primeira sala é imponente e tem várias mantas adquiridas ao longo dos anos. Hoje em dia a fábrica trabalha com gabinetes de decoração e recebe artigos para transformação. “Portanto, os clientes podem decidir o tamanho das peças que querem, podem também decidir a combinação de cores. Eventualmente, até podem trabalhar nos padrões. E nós fazemos as peças por medida.” Além das mantas, a Fabricaal tem também pufes, clutches, caixas de óculos, abajures, cabeceiras de cama. Tudo itens que garantem sofisticação e tradição na decoração das casas e que fizeram crescer o negócio. A lã é comprada a produtores locais, conta Luís Peixe. “Há uma associação ali em Évora que o que faz é recolher a lã dos produtores locais e nós compramos a lã deles. Depois enviamos a lã para o Norte de Portugal numa fábrica, onde é feito o fio nas cores naturais. Quando precisamos de cor, mandamos os fios para tingir noutros sítios.” A lã chega finalmente à fábrica e neste momento há 61 cores - seguramos nas mãos a tira com todas as cores enquanto Luís explica as mais populares. Já entrámos na sala dos teares. Num deles, António Carreteiro está a fazer testes no tear com a recém chegada “cereja/cerise”, um cor de rosa lindo, que está a ser combinado com preto e branco. “Uma coisa é vermos a cor a funcionar sozinha, outra é misturar com padrões e outras cores”, diz, com os olhos postos no tear. 

António no tear. Foto: Cátia Castel-Branco

Como é um dia na fábrica? Perguntamos a António. “Chego um pouco mais tarde que a equipa, cumprimento toda a gente vou ver se é preciso ajuda nalguma coisa, se é preciso resolver problemas. Depois venho para o tear, normalmente faço padrões novos, peças pequenas como pufes ou almofadas, temos vindo a descobrir que há gostos para tudo. Para fazer um pufe António demora em média 4 horas. “Nasci e vivi aqui até aos 13 anos, depois fui estudar para um colégio interno em Lisboa e só vinha nas férias e no Natal. Surgiu a oportunidade de comprar a fábrica, a Margarida Adónis era minha cliente e foi ela que ligou os três. Nessa altura não pensava de todo em deixar a minha profissão, a minha carreira de 30 anos, gostava do que fazia. Comprámos a fábrica em janeiro e em março começou a pandemia. Eu fiquei sem trabalho, e acabei por vir para cá, vinha para a fábrica. Durante aqueles seis meses, fiquei aqui a aprender, e a interessar-me mais. Quando tudo reabriu, recomecei as filmagens em Lisboa, mas já não voltei com a mesma vontade, estava lá com a cabeça aqui. Aguentei um ano e ir e vir e depois fechei aquele ciclo e comecei outro, foi uma decisão de que não me arrependo” conta, com um sorriso. “A criatividade é um exercício estranho, o grande motor da criação é a inspiração, ela é que comanda tudo, eu não sei explicar [quando isso me acontece]. É como quando acordo a pensar numa coisa, não descanso enquanto não chegar à forma como a imaginei”. Vemo-lo, concentrado, regressar a tear para solucionar um fio que se soltou.

Os tons coloridos das mantas. Foto: Cátia Castel-Branco
Também se fazem abajures. Foto: Cátia Castel-Branco

A fábrica acabou também por crescer em funcionários. Em 2020, quando António, Luís e Margarida adquiriram o negócio, existiam 4 pessoas nos teares, ao todo, hoje, são nove na fábrica (e mais uma na loja existente em Monsaraz). Uma das funcionárias mais antigas, Carmen, com pelo menos 25 anos de casa, conta-nos que quando se avaria uma peça é ela e as colegas quem soluciona: conhecem as equipas como ninguém. Elas, porque são apenas mulheres além de António, nos teares e na sala de finalização (onde os últimos retoques são dados e as encomendas são finalizadas). Está a fazer uma manta que parece enorme. "Normalmente demoro um dia". É espantosa a experiência e a capacidade com que domina o tear. É mágico e hipnotizante vê-la trabalhar com precisão.

Manta em lã com padrão às riscas em amarelo e cinza. Foto: Cátia Castel-Branco
Fabrica Alentejana de Lanificios em Reguengos de Monsaraz Foto: DR

O livro agora lançado, "Fabricaal: Tempo para o Tempo" (€50), acompanha, de perto, a confeção diária em tear de Carmen e das outras pessoas que trabalham hoje na fábrica, captando a essência verdadeira do savoir-faire deste nicho. O livro foi apresentado no Palácio dos Duques de Cadaval, em Évora, e mais recentemente no MUDE, em Lisboa, durante a ModaLisboa. No seu interior encontramos fotografias, memórias de arquivo, documentos históricos e testemunhos destes últimos seis anos, nas quais sobressaem as vívidas cores deste tipo de produto, bem como a complexidade dos teares. Cátia Castel-Branco fotografou ao longo de três anos. Vemos fotografias com um olhar mais documental, outras mais de campanha de lifestyle, todas com alma. Pode ser adquirido nas lojas ou em fabricaal.com

Onde? Rua dos Mendes, 79, Reguengos de Monsaraz Quando? De 2f a 6f, das 10h às 13h15 e das 15h às 17h. Contactos 266 502 179


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