Conversas

António Braga, enólogo. “Não podemos ser o país do bom e barato (...) como nunca, temos a alavanca do turismo”

O enólogo lisboeta que vive no Porto esteve anos na Sogrape e trabalhou para uma série vinícolas. A vindima deste ano marca o início do seu próprio caminho.

Foto: DR
11 de novembro de 2022 | Augusto Freitas de Sousa
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António Braga nasceu em Lisboa, o mais velho de seis irmãos, sempre com uma grande paixão pelo mundo rural. O curso de engenharia Agroindustrial e a especialização em Enologia e Viticultura no Instituto Superior de Agronomia foi um passo natural. Saiu em 2021 da Sogrape e escolheu a vindima de 2022 para começar a fazer os seus vinhos.

Foto: Sérgio Ferreira

O que destacaria no seu percurso na enologia?

Faço parte de uma geração que já fez bastantes viagens. Quando estava a estudar já começava a ser comum ir fazer vindimas ao exterior, e essas experiências foram essenciais para a minha formação enquanto enólogo. Vindimei na Califórnia, Nova Zelândia, Chile e Argentina. Em Portugal a primeira vindima que fiz foi em casa do meu amigo Luís Louro, na adega do pai dele, na Quinta do Mouro. Quando acabei os estudos, fui trabalhar para a CARM – Casa Agrícola Roboredo Madeira, onde rapidamente ganhei muita responsabilidade. Foram tempos de enorme aprendizagem, numa fase em que queria absorver o máximo de conhecimento possível. Depois da CARM, fui contratado pela Sogrape, onde tive excelentes mentores como Luís Sottomayor, Miguel Pessanha e Manuel Vieira. Foi também muito impactante toda a componente de valores e referências da empresa que estão intimamente ligados com a família Guedes. Sem dúvida estruturante e definidora a maneira como o negócio é vivido naquela empresa.

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Cresceu na enologia com a Sogrape?

Em termos de enologia destaco os anos em que trabalhei diretamente com o Luís Sottomayor e, durante esses 10 anos, o facto de ter participado na criação de grandes vinhos como o Barca Velha e tudo o que aprendi no mundo mágico do vinho do Porto. Foi também muito importante o trabalho de gestão técnica que aprendi com o Miguel Pessanha e restante administração da Sogrape. Numa outra dimensão, os valores e referências da família Guedes na gestão dos negócios e na relação com a empresa.

Porque decidiu abandonar o cargo na Sogrape? O que pesou?

A enorme vontade de fazer os meus vinhos e a confiança de que conseguiria conjugar esse sonho com uma carreira de consultor de enologia. Tenho também uma base familiar muito importante que me apoia e sonha comigo.

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De que forma a sua família está ligada a Trás-os-Montes?

A minha avó é uma das sócias da Sociedade Clemente Menéres, que produz os vinhos e azeite da Quinta do Romeu. Posso dizer que foi sempre o enquadramento mais familiar que tive com o setor. Hoje faço parte do conselho de família, um órgão consultivo de apoio à gestão.

O que é exatamente o seu projeto vinícola pessoal?

O meu projeto começa sem adega nem vinhas. É um projeto que quer explorar pequenos pormenores em várias regiões, trabalhando sempre num segmento de nicho. No fundo quero, em cada vinho, entregar ao consumidor a minha perspetiva sobre determinada região, uva ou processo. São o que podemos chamar vinhos de autor, com uma forte atenção ao detalhe e pormenor.

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Foto: Sérgio Ferreira

Onde procura uvas para comprar? Como decide?

Uma das mais importantes características de um enólogo é conseguir antever numa uva qual ou quais os perfis de vinhos que se conseguem obter. Após a minha definição do posicionamento e estética dos vinhos que quero fazer, vou à vinha procurar as uvas com as características que me permitam alcançar o perfil desejado. É uma pesquisa de pormenor, com muitas horas passadas na vinha, à procura dos melhores ingredientes para o objetivo final. Numa comparação simples diria que é como um chef na banca de um talho ou num mercado a comprar peixe. Naquele momento pensa no prato final, mas também nos melhores ingredientes para o atingir.

Prevê fazer dois tintos no Douro. Porquê a região e os vinhos?

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O Douro é uma das mais incríveis regiões de vinho do mundo. Não é só a paisagem dramática, é muito além daquilo que os nossos olhos vêm. O solo, o clima, a exposição solar, as nuances entre diferentes encostas, as castas que aí encontramos e as práticas culturais estão nesta região numa conjugação perfeita para fazer sobretudo grandes vinhos tintos. Tendo eu uma experiência de 13 anos no Douro, foi uma escolha natural para a base do meu projeto.

Que castas pretende utilizar?

Numa primeira fase terei dois tintos, um feito apenas com Mourisco, uma casta mal-amada, proscrita, mas que eu penso poder ser trabalhada de uma forma que enaltece as suas características elegantes. Terei também um vinho feito à base de Touriga Nacional, Tinto Cão e Touriga Franca, três castas muito complementares e que são a base de muitos vinhos de altíssima qualidade na região.

Também vai fazer um Alvarinho…

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O terceiro vinho que irei lançar é um Alvarinho, da sub-região de Monção e Melgaço.

Porquê a escolha dessa casta?

Pela altíssima qualidade dos vinhos que produz. O Alvarinho tem a magia de alcançar um equilíbrio entre a maturação da fruta e preservação de acidez que lhe confere um caráter muito distintivo no mundo dos vinhos brancos. Consegue ter em boca uma cremosidade sem nunca perder a energia e a tensão. São vinhos muito sérios, com uma componente gastronómica marcada e um excelente potencial de envelhecimento.

Onde vinifica ou vai vinificar os seus vinhos?

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Os vinhos do Douro vinifico numa adega de prestação de serviços, um projeto muito interessante do Eric Nurmi e da Mafalda Machado, que funciona como uma incubadora de projetos de vinho. É o sítio ideal para dar o pontapé de saída num projeto desta natureza. O Alvarinho estou a vinificar na adega do meu amigo Anselmo Mendes, na minha opinião, o enólogo que melhor domina a casta e vinhos da região. Estou muito contente por conseguir trabalhar na adega dele.

Que vinhos mais conta fazer, futuramente?

Irei consolidar a produção de tintos no Douro e estar atento a outras regiões e estilos onde haja, não só qualidade, mas também histórias para contar.

Além do Douro e do Alvarinho, onde gostaria de fazer vinho?

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Tenho algumas regiões onde um dia gostaria de fazê-los para a minha marca própria: brancos na Bairrada e em Bucelas, tintos no Dão. A minha independência e a natureza do meu projeto permitem-me essa flexibilidade.

Quais são as particularidades que destacaria nos seus vinhos?

Ainda estão em estágio, a evoluir e ganhar personalidade. Terei um Mourisco com toda a elegância escondida de uma casta proscrita, o outro tinto do Douro irá apresentar-se num estilo de maior intensidade e estrutura. Já o Alvarinho está sobretudo baseado na componente de boca, apresentando uma textura e untuosidade altamente gastronómicas.

A enologia é apenas sua?

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Sim, são 100% feitos por mim.

Que vinho lhe dá mais prazer beber? E fazer?

Não conseguiria escolher apenas um. Todos os vinhos têm o seu momento, gosto muito de ser surpreendido por combinações gastronómicas invulgares. A principal característica que procuro num vinho é o seu equilíbrio, no limite é esse equilíbrio que faz com que queiramos beber um segundo copo e comprar uma segunda garrafa. Privilegio os vinhos feitos para a mesa, com boa capacidade de evolução e que de alguma forma nos dão que pensar.

Foto: Sérgio Ferreira
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Que vinho gostava de fazer e ainda não fez?

Um tinto da Côte do Rhône, um Chardonnay da Borgonha.

Tem uma casta preferida branca? E tinta?

Impossível. Todas as castas têm o seu lugar, a sua expressão. Neste mundo não há absolutismos nem verdades herméticas.

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Pode descrever as suas vertentes de "enólogo-gestor-produtor"?

Enquanto enólogo penso ter um perfil de base com um conjunto de competências relativamente alargado e que vão além da componente estritamente técnica. Com essa base, e com o gosto que tenho por diferentes áreas, fui me interessando pela componente de gestão, dessa forma, ainda como quadro da Sogrape, fiz um MBA na Porto Business School, que foi determinante para o meu crescimento profissional e valorização pessoal. Hoje consigo ter uma visão mais abrangente da cadeia de valor, o que permite um processo de decisão bastante mais seguro.

O que quer dizer com a sua frase "nem tudo é poesia, nem tudo é economia"?

Temos de ter um equilíbrio entre as várias componentes de um negócio. No vinho podemos ter tendência a correr apenas atrás de um sonho, queremos ter um vinho custe o que custar. Acho determinante pensar os projetos de uma forma sustentável, é essencial saber domar o nosso sonho, ser pragmático em prol de um objetivo de criação de valor. Devemos saber claramente desenhar essa linha de equilíbrio, em que o projeto contribui para o nosso sonho, sem perder a perspetiva de criação de valor no longo prazo. É neste ponto que penso ser determinante conseguir conjugar a componente operacional, enológica, estilística com uma visão de negócio, estruturada e sustentada.

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A sua empresa de consultadoria está focada em que tipo de produtores? Pode dar um exemplo?

A melhor definição que eu tenho para o tipo de produtores que me procuram é uma enorme determinação em fazer bem. Tenho clientes de diferentes dimensões, com diferentes posicionamentos de mercado, mas a verdade é que em todos eles há uma vontade de crescer, de inovar e de criar valor. Desde estruturas com maior dimensão como o Grupo Abegoaria ou a Casa Relvas, a projetos mais pequenos no Douro como o Nativo, a Vinha do Alto ou a Quinta da Eiró. A minha proposta de valor enquanto consultor é exatamente desenhar a linha onde o equilíbrio entre a concretização do sonho e a visão de futuro se encontram com a sustentabilidade económica do projeto.

Quais são, no seu entender, os principais erros cometidos pelos produtores quer na viticultura como na comercialização dos vinhos?

É difícil apontar erros, todos queremos fazer bem. Diria que tipicamente falhamos na definição de objetivos, começamos a construir a casa pelo telhado e de repente vemos que nos falta fazer mais um quarto... é raro ver um produtor com uma estratégia de negócio bem definida e, quando essa existe, muitas vezes faz falta o follow up dessa estratégia. É comum ver projetos de vinhos que começam apenas porque existem ativos (vinhas, adegas...) e esses condicionam toda a estratégia. A minha visão é oposta, a estratégia é que define quais os ativos que eu preciso. Também não podemos ter medo de sonhar alto e apontar os nossos objetivos para produtos de elevada criação de valor. Portugal é um país da primeira liga dos países produtores de vinho e não pode ter vergonha de se assumir dessa forma.

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O que falta a Portugal para se posicionar no mundo dos vinhos?

Não só a componente estratégica referida acima, mas a questão do posicionamento tem de ser enquadrada a um nível mais global. Aí temos de pensar enquanto país. Não podemos ser o país do bom e barato para umas áreas e depois querer ser altamente premium noutras. Veja-se o exemplo da Suíça, em que todas as áreas se procura a excelência. Hoje, como nunca, temos a alavanca do turismo, é determinante uma imagem de qualidade, um posicionamento de elevada criação de valor que começa nessa viagem que se faz ao nosso país. 

Que caminho considera que Portugal deveria tomar?

Portugal, é um país com um património genético de castas (variedades de uva) impressionante, diria mesmo que único. Devemos ter esse ponto como diferenciador na base dos nossos vinhos. Sendo nós um país com muita tradição, devemos também saber contar as histórias que nos fizeram chegar até aqui. Temos de ter atenção ao pormenor. O vinho faz tanto parte da nossa cultura que por vezes achamos que é banal, quando na verdade, para alguém oriundo de um país não produtor, estamos perante um produto verdadeiramente especial, único e original. Temos de saber contar essas histórias.

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Há quem diga que deveria haver mais zonas de Denominação de Origem Controlada (DOC) do que as existentes. Concorda?

No geral diria que não, o nosso sistema é bastante maduro. No entanto há afinações que podem ser feitas. A mudança de nome da região da Estremadura para Lisboa, contendo dentro dela as diferentes DOCs é um bom exemplo recente. Há também a questão da sub-região de Monção e Melgaço, que pelo estilo de vinhos que produz poderia ser avaliada num contexto de uma DOC específica dentro da região dos Vinhos Verdes.

As regras das várias comissões de vitivinícolas das regiões (CVR), Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP) e o Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira (IVBAM) estão de acordo com os novos tempos? O que alteraria?

O grande desafio das CVR e institutos certificadores é a constante atualização. São organismos essenciais para uma conformidade regional, mas devem estar atentos à sua ação, para que dessa forma permitam a evolução das regiões. Não podemos espartilhar dentro de regras antigas uma região sob pena de a tornarmos obsoleta.

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Como comenta os preços da uva e dos vinhos?

É uma equação difícil de resolver. Temos de ter uma lógica de mercado. Em Portugal há muito vinho demasiado barato à venda nas prateleiras, esse facto é impossível de conjugar com um bom preço à produção da uva. Deve haver mais profissionalismo na viticultura, temos que saber produzir mais e melhor. A jusante, na componente comercial temos de saber valorizar os nossos produtos e depois enquanto empresas fazer uma boa distribuição das nossas margens para dessa forma acrescentarmos sustentabilidade a toda a cadeia de valor.

De que forma se prepara para as alterações climáticas e, se for o caso, para produções mais sustentáveis?

Portugal é dos países com maiores desafios perante as alterações climáticas. Estamos no sul da Europa, numa das zonas mais quentes em termos de regiões vitícolas. O nosso património genético de castas está de alguma forma adaptado a um clima extremo, mas é importante ir estudando, melhorando e adaptando as variedades que temos à perspetiva de evolução climática. Aí os trabalhos de uma associação como a PORVID assumem um papel muito relevante. Nunca nos podemos esquecer que, em termos de vinha, as nossas decisões têm sempre o horizonte da vida útil das plantas, e assim as decisões que estamos a tomar hoje têm uma relevância de, pelo menos, 25 anos, sem dúvida um fator adicional de complexidade.

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Foto: Sérgio Ferreira

O que acha da "moda" de vinhos naturais, pet-nat e outras tendências?

As modas fazem parte do nosso mundo, nós queremos novidade, é natural. Como diz o meu amigo Manuel Vieira o vinho é uma invenção do Homem, se deixarmos um cacho na vinha ele naturalmente não se transforma em vinho. As modas de produtos bons irão manter-se, as outras vão ser só uma moda, que por definição será passageira.

O que recomendaria a quem tem o desejo de fazer e vender vinho?

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Conseguir conjugar esse sonho bonito com um bom desempenho de criação de valor. A estruturar bem a ideia desde o primeiro momento e a não ter medo de sonhar.

Ainda é preciso mudar mentalidades e formas de atuar?

Será sempre. A mudança de mentalidades é um processo em andamento. Vivemos num mundo altamente dinâmico, se não estivermos constantemente a atualizar o nosso ‘software’ corremos um forte risco de ficarmos estagnados. Temos que aprender a desafiarmo-nos constantemente.

Qual vai ser a próxima tendência nos vinhos?

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Existirão várias tendências conforme os diferentes posicionamentos. A preocupação com os aspetos relacionados com saúde será crescente, teremos o tema da sustentabilidade cada vez mais no topo das prioridades. Em termos de nicho, penso que os próximos tempos serão de recuperação das tradições à luz de uma visão moderna, voltar a contar as histórias que parece que já esquecemos ou que nunca nos foram contadas.

E qual será o futuro dos vinhos?

São parte integrante da nossa cultura e estilo de vida, terão desafios a enfrentar, como aqueles postos pelas questões da saúde e sustentabilidade. Sabemos que, quando consumidos de forma moderada, contribuem para vidas mais felizes e saudáveis, para melhores amizades e parcerias duradouras. Os vinhos serão sempre uma das grandes formas de contar histórias, falar de lugares, revelar culturas. Tenho um enorme orgulho em poder transmitir tudo isso numa garrafa de vinho.

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