Viver

Bruce Springsteen, o herói sem direito a reforma

Une gerações e cruza estilos sem perder a autenticidade. Um homem e um músico que nunca passou de moda. Marca uma presença humilde em combates políticos. Gosta de uma vida simples, depois de um crescimento complicado. Aos 70 anos, agora completados, não perdeu o gosto dos palcos e dos discos. Eis uma fanfarra para um homem comum.

Foto: Instagram @redemartin
05 de dezembro de 2019
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Quando Bruce Frederick Joseph Springsteen nasceu, numa cidade sem perspetivas do estado de New Jersey e pouco virada às luzes do "sonho americano", o Presidente dos Estados Unidos da América era Harry S. Truman. Depois dele, já se seguiram mais doze ao longo da vida do músico. De uns foi apoiante entusiasta – Bill Clinton e, sobretudo, Barack Obama, em cuja tomada de posse foi chamado a partilhar o palco com um dos seus heróis, Pete Seeger. De outros foi um crítico implacável, em particular de George W. Bush. Para as memórias fica a sua zanga pública com a campanha que conduziu à reeleição de Ronald Reagan quando os estrategas decidiram apoderar-se da força transbordante da canção Born In The U.S.A. e lhe desvirtuaram o sentido e se "esqueceram" de pedir licença ao autor… Quanto à figura que por estes dias se tornou inquilino da Casa Branca, não há dúvidas quanto à distância abissal que os separa. Simplesmente, Springsteen tende a ignorar Trump. E explicou-o em entrevista recente à revista Variety: "A minha prioridade foi sempre a música e a vida das pessoas, não a questão ideológica. Nem sequer me sinto habilitado a doutrinar quem quer que seja… Eu sempre optei por não esconder os meus pontos de vista, até em função do conhecimento que fui ganhando do país, de todos os que vou contactando e que têm sempre uma história para me contar. Mas eu tenho plena consciência de que o número de intervenções políticas cresce na proporção inversa da eficácia – quanto mais se efetivam, menos influentes ficam… Por isso, eu guardo-me para os momentos que sinto, que eu sinto, como cruciais, para não banalizar, até porque não é esse o meu papel. Quanto a Trump, em concreto, felizmente há quem se ocupe dele diariamente e de forma exemplar…"

Há muito que Bruce Springsteen ocupa um lugar único no anfiteatro dos grandes da música popular americana. Começou por ser olhado e apontado como "o novo Dylan". Piscou o olho à soul, aproveitou o "jogo de cintura" de Elvis Presley, chegou-se à linha mais dura, vagueou pelas estradas de horizonte aberto com pinceladas de country & western, mais na atitude do que na forma, abraçou as heranças de Woody Guthrie e de Pete Seeger, brincou ao toca e foge com o rock e abateu fronteiras. Em suma, tornou-se inconfundível com o rolo compressor da E-Street Band ou sem ele. Foi épico, sem deixar de ser "íntimo": as suas melhores canções – e já lá vão centenas – partem sempre de um indivíduo, de uma personagem, de uma circunstância particular, de um acontecimento que cada um atravessa à sua maneira. Recorrendo ao léxico dos nossos dias, pode dizer-se que o multipremiado cantor e autor nunca desistiu de uma "política de proximidade" face aos seus pares, os cidadãos que batalham todos os dias por um emprego, uma justiça, uma família, uma esperança. Não fala – nem canta – de cátedra, não dita perspetivas, não sentencia. À boa maneira dos seus antepassados musicais, conta histórias comuns para homens – e mulheres – comuns. Basta recorrer a um tema como Born To Run, o maior responsável pelo seu salto em frente, escrito na ótica dos "perdedores", dos inadaptados, dos perseguidores do american dream que teima em rolar bem à distância, fora dos limites de uma pequena cidade, feia, industrial, degradada, como aquela em que Springsteen cresceu.

Brian Hiatt, autor do livro Bruce Springsteen – The Stories Behind The Songs (Carlton Books), segue as aventuras do Boss, uma a uma, contextualizando-as no quotidiano do seu criador. Por exemplo, The River narra, de forma quase fiel, o percurso da irmã e do cunhado do músico, a envolver uma gravidez precoce e um cerrar de dentes para alcançar uma sobrevivência digna. Já Born In The U.S.A., a canção, dá voz a um veterano da guerra do Vietname (a cuja mobilização Springsteen escapou, milagrosamente, por causa do cabelo comprido e de comportamentos vistos como pouco ortodoxos) que oscila entre a insatisfação, o desespero e a revolta – só foi escrita depois de Bruce conhecer e conversar com dois antigos combatentes no conflito, um deles o célebre Ron Kovic que esteve na origem do filme Nascido a 4 de Julho, de Oliver Stone. Até em The Ghost Of Tom Joad, gravada duas vezes, em versões bem distintas (nos álbuns The Ghost of Tom Joad, de 1995, e High Hopes, de 2014), claramente inspirada na personagem que conduz a ação e as ideias do livro As Vinhas da Ira, de John Steinbeck, a abordagem revela-se pouco literária, na medida em que este Tom é um cidadão americano na década de 1990. O mesmo se passa com o álbum The Rising, de 2002, olhado como uma resposta aos acontecimentos do 11 de Setembro, em que, mais do que a doutrina, o criador persegue as aproximações e reações individuais. O talento, o enorme talento de Bruce Springsteen, está em partir do singular para o plural, para o coletivo, para algo que permite, ao longo das suas muitas décadas de atividade, que não esmoreça um especial fenómeno de identificação entre quem canta e quem ouve.

Foto: Getty Images
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 A longa estrada

Para se conhcer a sério a longa estrada percorrida por Bruce – o mesmo homem que já ganhou duas dezenas de prémios Grammy, dois Globos de Ouro e um Óscar (por Streets Of Philadelphia), até um Tony, reservado às artes de palco e atribuído aos seus "espetáculos narrativos" na Broadway, que junta ainda a essa lista o Prémio Kennedy, reservado aos grandes da cultura e da arte nos Estados Unidos (foi distinguido, em 2009, em simultâneo com Robert De Niro, Mel Brooks e Dave Brubeck), e uma assinalável Medalha Presidencial da Liberdade (que recebeu, em 2016, das mãos de Barack Obama), que vendeu mais de 135 milhões de discos, que conseguiu a proeza, até aí inédita, de ser figura de capa em simultâneo nas revistas Time (título: Rock’s New Sensation) e Newsweek (título: Making Of A Rock Star), a 27 de outubro de 1975 –, torna-se indispensável recorrer à sua pormenorizada autobiografia, Born To Run (edição portuguesa da Elsinore). Até porque a viagem é acompanhada sem que Springsteen tente, uma vez que seja, dourar a pílula.

Ficamos a saber que a infância e a juventude de quem hoje possui um rancho e uma série de casas espalhadas pelos Estados Unidos – não abdicando de viver grande parte do tempo no seu estado natal, New Jersey, o mesmo que serviu de berço a Frank Sinatra e a estrelas como Sarah Vaughan, Count Basie, o sublime Bill Evans e Wayne Shorter, na área do jazz, ou Paul Simon, Donald Fagen, Whitney Houston e Jon Bon Jovi, nos terrenos pop/rock – pode considerar-se muito dura. Uma das casas em que viveu enquanto criança não tinha aquecimento de espécie alguma e até os banhos de Bruce e das suas duas irmãs, Virginia e Pamela, ocorriam em dias alternados, uma vez que a água precisava de ser aquecida no fogão pela mãe. O jovem Bruce sempre manteve uma relação difícil com o pai, alcoólico, impulsivo, agreste e intolerante, por exemplo com a adesão do filho à moda dos cabelos compridos, da ganga e da vida predominantemente noturna. Springsteen parece, de resto, começar por procurar a validação paterna que, até nos tempos de reconhecimento crítico e de estrelato público, foi sendo adiada até ao momento em que, numa conversa a dois, o pai, que sofreu de perturbações mentais, e que foi motorista e operário, passando longas temporadas desempregado, lhe agradeceu o facto de não se ter "deixado estragar" pelo convívio entre ambos, reconhecendo um falhanço rotundo como educador… e como exemplo.

A escola também não era a "praia" do jovem Springsteen que preferia as saídas com os amigos, primeiro para vaguear pelas ruas e praças de Freehold, depois estendendo a sua área de interesses até aos bares, especialmente aqueles que oferecessem música ao vivo. Depois de faltar à cerimónia de graduação no ensino secundário, com grande escândalo familiar, o rapaz foi célere a anunciar que bastava de esforços académicos e que tinha mais que fazer. Não passa despercebida a revelação que teve, ainda menino, ao ver Elvis Presley na televisão. Tornara-se colecionador de discos, comprados a expensas próprias ou com as generosas ajudas da mãe, secretária num escritório de advogados local, contribuições que depois se estenderam às primeiras guitarras (a de estreia custou 19 dólares). Veio a época das primeiras bandas – que Springsteen não hesita em classificar como horríveis – e dos primeiros mestres, alguns deles com culto regional, guitarristas ou cantores. Descobriu a soul e o rock, começou a tornar-se figura assídua nos micropalcos dos bares da sua zona depois de passar por festas de escolas e por iniciativas das associações da cidade. Até ser confrontado com a mais pesada das suas decisões, até à data, no momento em que os pais decidiram trocar New Jersey, um estado que se tornara palco de sucessivas crises económicas e laborais, pela Califórnia. Com esta partida, o casal Douglas Frederick e Adele Ann deixava para trás a filha mais velha, já casada, e o próprio Bruce que preferiu ficar no seu habitat natural e insistir na música. O que implicou muitas mudanças de casa, muitos despejos, alguns "encontros imediatos" com as autoridades locais ("vagabundagem", diziam), uma sucessão vertiginosa de namoros e de amizades.

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Aos poucos fazia-se uma travessia. Primeiro cruzando o rio Hudson e começando o trajeto aspiricional até ao el dorado de Nova Iorque, quase sempre com noites ao relento e boleias de um lado para o outro. Depois, Bruce e os seus companheiros de ocasião atravessavam literalmente o país para tocar, em carrinhas que há muito tinham ultrapassado o prazo de validade e que lhe valeram avarias (com "abandono de viatura"), acidentes, erros de roteiro e madrugadas insones e geladas. A sorte mudou quando conheceu Mike Appel, produtor e agente, que o levou ao escritório de John Hammond, à época o homem forte da Columbia Records, e cujo currículo contemplava a descoberta e a contratação de Bob Dylan, uma década antes (em 1962). Em janeiro de 1973, com um entusiástico reconhecimento da crítica especializada e com uma substancial ignorância do público, publicou o primeiro álbum (Greetings From Asbury Park NJ). O resto é lenda.

Foto: Getty Images

Sem mudas de roupa

Nem tudo foram rosas, claro: a editora descurou qualquer esforço na divulgação do segundo disco de Springsteen (The Wild, The Innocent and The E-Street Shuffle) e houve grandes dúvidas quanto à edição do terceiro – felizmente era um monumento vibrante e arrasador como Born To Run. O cantor descobriu que o acordo firmado com Mike Appel o transformava num escravo… mal pago, dando origem a uma batalha judicial penosa para ambas as partes. Mas foram-se fixando os amigos mais próximos e que dariam origem à melhor das formações da E-Street Band: Max Weinberg (baterista), Garry Tallent (baixo), Danny Frederici (órgão), Roy Bittan (piano), Clarence Clemons (saxofone) e Miami Steve Van Zandt (guitarra). O destaque deve ser alargado a Nils Lofgren, outro guitarrista emérito, cuja presença surgiu em alternativa ou em complemento à de Van Zandt, e, claro está, a Patti Scialfa, cantora e guitarrista ocasional, a mulher que viria a mudar a vida de Bruce. Esta "associação de malfeitores", sempre mais valorizada pelo conjunto do que pelas individualidades, poderia sugerir uma democracia funcional absoluta. Puro engano: na sua biografia, o líder incontroverso e incontestado da banda faz questão de separar o trabalho do conhaque – há liberdade de contribuição, sempre desejada, mas as decisões finais pertencem-lhe e já permitiram várias interrupções e reativações do grupo, consoante o momento musical de Springsteen. Há o bom exemplo de Nebraska (de 1982), o álbum que primeiro o fez chegar-se à folk: gravou sozinho as bases das canções, chamou a banda e adaptou os temas para versões de grupo, mas acabou por publicar os registos iniciais. Fez bem. A sua alcunha perene, The Boss, nasceu dentro do conjunto que se tornou famoso pelas insuperáveis presenças de palco em espetáculos que continuam a desprezar qualquer prática de poupança-reforma, muitas vezes excedendo as três horas de música sem pausas para recuperar fôlego. As mortes de Frederici e, sobretudo, de Clemons são dois dos momentos mais comoventes do livro.

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Livro que não ignora um momento de autoflagelação do cabeça de cartaz que reconhece uma atitude nada louvável no seu primeiro casamento (1985-1989) com a atriz Julianne Phillips. Pelo meio tinha-se imposto Patti Scialfa, a mulher que conseguiu trazer para a vida de Springsteen a estabilidade emocional que (quase) sempre lhe faltou. A ligação dura há três décadas. Quando casaram, em 1991, já eram pais de Evan James, a que se seguiriam mais uma menina, Jessica Era, e um rapaz, Samuel Ryan. Foi este núcleo que permitiu ao patriarca ultrapassar aquilo que ele descreve como uma "condição natural depressiva" que conduziu a um longo período de terapia. Com todos estes percalços, que faz questão de tornar públicos, o homem, que naturalmente envelheceu, tem como marca distintiva a fidelidade às ideias e à imagem. Se as primeiras ficam bem patentes nas canções – e este século tem rendido uma atividade invulgar entre discos novos, registos ao vivo, efemérides de álbuns de marca (Born To Run, Darkness On The Edge Of Town, The River) com gravações recuperadas ao arquivo pessoal, a autobiografia, pelo menos um livro de banda desenhada –, a segunda é notória: botas, jeans, camisas de cor única, blusões de ganga e de cabedal continuam a valer como uma marca de simplicidade. De resto, Springsteen goza consigo mesmo, em relação à fase em que usou uma banda no cabelo e à época em que a frequência do ginásio lhe valeu uns bícepes avantajados. Foi nesses "preparos" que, renitentemente, gravou o seu primeiro videoclip para a canção Dancing In The Dark, do álbum Born In The U.S.A. (que rendeu nada menos de sete singles), que carrega duas curiosidades: foi dirigido pelo realizador Brian De Palma e apresentou ao mundo uma miúda que é puxada da plateia para o palco para dançar com o cantor – Courteney Cox, futura estrela da sitcom Friends.

Sobre o presente, recorra-se, mais uma vez, à escrita do próprio artista em Born To Run: "Envelhecer é aterrador, mas também é fascinante e os grandes talentos transmutam-se de formas estranhas e muitas vezes iluminadas. Além disso, só podemos desejar longa vida, felicidade e paz a todos aqueles que nos deram tanta alegria, sabedoria e inspiração. (…) A juventude e a morte sempre foram uma combinação inebriante para os criadores de mitos que pululam pelo mundo dos vivos. E a falta de amor-próprio, perigosa e inclusive violenta, foi desde sempre um dos ingredientes essenciais nas fogueiras da transformação. Quando o ‘novo eu’ renasce das cinzas, o autocontrolo e a imprudência estão ligados de forma imutável. Eis o que torna a vida interessante. Muitas vezes, a alta tensão entre estas duas forças faz com que seja fascinante e divertido ver um artista, mas também coloca uma cruz branca à beira da autoestrada. Muitos dos que percorreram este caminho acabaram por morrer ou por ficar com uma exaustão grave. O culto da morte é bastante acarinhado no mundo do rock com direito a narrações na literatura e na música, mas na prática não resulta em grande coisa para o cantor e a sua canção, exceto uma boa via que fica por viver, pessoas amadas e filhos que ficam para trás, e uma cova funda que fica no cemitério. O findar no auge da glória não passa de uma grande treta."

Autorretrato? Acreditemos que sim. Bruce Springsteen continua a ter histórias para contar e canções para distribuir. Em Western Stars, o seu disco deste ano, a tónica está longe de ser otimista – e a existência de Donald J. Trump não se dissocia deste cinzento dominante. Mas, lá pelo meio, há um recado na canção Hello Sunshine que se poderia traduzir – livremente, fica o aviso – por um poema imortal português que nos lembra isto: "Mesmo na noite mais triste/ em tempo de servidão/ há sempre alguém que resiste/ há sempre alguém que diz não." Ou seja, convocando os saberes populares, "enquanto há vida, há esperança". Que o Boss tenha muitos anos de vida. Direito à reforma, isso é que não tem.

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