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Sem nostalgia. A maturidade criativa da Ernest W. Baker

A nova coleção revisita códigos do passado, mas não para os repetir. Afina-os, consolidando uma linguagem visual coesa e uma identidade que se afirma pela confiança.

Designers recebem aplausos após desfile de moda Foto: DR
13 de fevereiro de 2026 | Safiya Ayoob
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Perante a tentação constante da novidade a qualquer custo, a Ernest W. Baker escolheu outro caminho para a nova coleção: o da introspeção. Mas ao invés de voltar-se para um caráter nostálgico, utilizou-a como exercício de clareza. Olhar para trás, revisitar códigos, reconhecer padrões - não para os cristalizar, mas para os compreender. O resultado é uma coleção que não tenta reinventar a marca, antes confirma a sua identidade com uma confiança silenciosa, amadurecida.

"Vemos esta coleção como uma evolução natural da nossa identidade", explicam os designers Reid Baker e Inês Amorim, em entrevista à Must. "Olhar para trás foi algo instintivo, porque as origens da marca sempre tiveram como base a ideia de reinterpretar peças clássicas com cuidado, em que cada corte, tecido e detalhe é pensado com intenção." Essa ideia de intenção, quase obsessiva, atravessa toda a coleção. Nada parece arbitrário; tudo parece deliberado.

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Desfile de moda apresenta modelos com casacos e jaquetas modernas na passerelle Foto: DR

Ainda que a coleção dialogue com propostas anteriores, os criadores rejeitam a ideia de um arquivo literal. Não se trata de uma retrospectiva, mas de um processo vivo de depuração. "Revisitamos códigos de coleções passadas, mas sempre com a intenção de os reinterpretar, preservando a identidade da marca, refinando esses elementos para que façam sentido no presente e apontem também para o futuro." É nessa tensão entre memória e presente que a Ernest W. Baker encontra o seu território criativo.

Ao longo desse processo, algo se tornou particularmente evidente: a coerência interna da marca. "Descobrimos que a identidade da Ernest W. Baker é mais coesa e contínua do que imaginávamos", admitem. Essa constatação trouxe também uma mudança de atitude. "Uma nova confiança: a de continuar a aprofundar o nosso próprio vocabulário, em vez de procurar algo exterior ou seguir tendências." Num sistema de moda saturado de referências e estímulos, esta escolha revela-se quase radical.

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Desfile apresenta casacos e fatos aos quadrados com óculos de sol Foto: DR

Visualmente, essa coerência manifesta-se na repetição consciente. Padrões, materiais e silhuetas regressam em variações subtis, criando uma sensação de unidade quase gráfica. O xadrez - apresentado em três interpretações distintas - torna-se um fio condutor, estendendo-se do vestuário aos acessórios. "Traduzir esse mesmo xadrez desde o tecido para acessórios como sapatos e carteiras, e também em malhas, reflete a nossa intenção de clareza e coerência visual", explicam, sublinhando a importância dos total looks como linguagem central da marca.

Mas esta coleção não se esgota na forma. Existe nela uma dimensão emocional clara, quase narrativa. A ideia de viagem - física e simbólica - atravessa todo o projeto. Talvez por isso o desfile tenha acontecido num barco, no Rio Sena, em Paris. "Por ser o nosso primeiro desfile, quisemos criar uma coleção que evoca à reflexão, e trazer com ela a poesia e o romantismo que sempre estiveram presentes na marca, numa viagem quase às nossas próprias memórias." O cenário não foi apenas pano de fundo; foi parte integrante do discurso.

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Desfile de moda com casaco de padrão leopardo e calças pretas Foto: DR

O facto de ser a estreia da marca em passerelle teve um peso decisivo. Tudo foi pensado como extensão da identidade da Ernest W. Baker. “Era fundamental que a identidade da marca se refletisse em cada detalhe”, dizem. “Desde a localização, às peças, acessórios, assim como a música.” Mais do que um desfile, foi uma encenação cuidada de um universo criativo.

E se olhar para trás pode ser confundido com nostalgia, aqui assume outro papel. “Para nós, o olhar para trás serve para construir com mais consciência o que vem a seguir.” O passado surge como ferramenta estratégica, não como refúgio emocional. É um método de trabalho, quase um sistema de valores.

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Desfile de moda apresenta modelos com visuais distintos e elegantes Foto: DR

No final, a pergunta impõe-se: para onde vai a Ernest W. Baker depois deste momento tão definidor? A resposta é clara, mas aberta. "A Ernest W. Baker está segura da sua identidade, o que nos permite continuar esta viagem de reimaginação e construção do futuro da marca.” Não há pressa, nem ansiedade de reinvenção. Apenas a convicção de que saber quem se é - e de onde se vem - é, hoje, um dos gestos mais contemporâneos que uma marca pode fazer.

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