O charme eterno dos clássicos
O diretor criativo da linha de homem da Mango, Roberto Pastore, chamou Toby Lamb, diretor de design da marca cool de alfaiataria inglesa, Richard James para criar uma coleção que acaba mesmo de sair. A Must foi fazer perguntas a ambos e resultou numa bela conversa sobre alfaiataria.
Em tempos de grandes mudanças e convulsões, de superficialidades várias e amadorismo, voltamos sempre ao conforto eterno dos clássicos e de quem sabe mesmo o que faz. A Mango resolveu apostar na alfaiataria à séria, feita por quem a conhece com profundidade, e convidar nomes destacados da arte do fato. A primeira foi a casa londrina Richard James, da linhagem Saville Row, a alfaiataria britânica no seu melhor, com dois séculos de existência. Desde o primeiro momento, que a marca homónima do alfaiate que a fundou quis respeitar os dois séculos de alfaiataria de Savile Row, com todas as suas geometrias e qualidade excepcional, mas esticando sempre os limites através da cor e dos padrões, dos cortes e de um design feito de detalhes, novas estruturas e conforto absoluto.
Mais um passo no programa The Sartorial Journey, onde a Mango Man quer valorizar a alfaiataria moderna ao colaborar com alguns dos melhores ateliers do mundo, e já aconteceu com a Boglioli. Agora a ideia foi revisitar modelos inspirados nos arquivos da Richard James Savile Row que cruza com mestria a solenidade de um fato impecável com uma certa leveza e alegria, que lhe trouxe, desde os anos 90, uma linhagem de clientes como Elton John - que, em 2011, pediu a Richard James para lhe desenhar o guarda-roupa de palco para os seus espectáculos Million Dollar Piano em Las Vegas – também os atores britânicos Jude Law, Daniel Craig e David Beckham, e até o americano Tom Cruise já vestiu Richard James para os Óscares, em finais dos anos 90.
Porque decidiram embarcar nessa jornada sartorial conjunta? Houve algum sinal do mercado que levou a seguir esse caminho?
Roberto Pastore: A alfaiataria está claramente de volta à moda. A Covid transformou muitos aspetos do comportamento do consumidor em relação à alfaiataria e na Mango Man vimos isso como uma oportunidade para fazer evoluir a nossa oferta, investindo em novos formatos e novas ocasiões de uso. A alfaiataria sempre foi um pilar fundamental da nossa estratégia, crescimento e plano de investimento. Desde 2022, observamos um aumento de 55% no nosso negócio de alfaiataria, atingindo um volume de negócios de 85 milhões de euros, portanto, houve um sinal muito claro do mercado, e estamos a responder com uma proposta de alfaiataria mais forte e contemporânea.
Ao escolher as melhores marcas e designers para esta colaboração de alfaiataria, quais foram as suas primeiras e principais preocupações?
RP: O nosso ponto de partida foi simples: queríamos aprender com os melhores. A ideia era ir a oficinas de primeira linha e mostrar como alguns dos alfaiates mais renomados do mundo interpretam os códigos clássicos da alfaiataria e os traduzem para uma linguagem contemporânea. Essa abordagem de «artesanato encontra modernidade» foi a nossa principal diretriz ao selecionar os parceiros.
E como foi o encontro com Toby Lamb, porque escolheu a Richard James?
RP: Colaborar com uma marca da Savile Row como a Richard James é um passo importante na nossa abordagem à alfaiataria. Partilhamos uma mentalidade semelhante: ambas as marcas acreditam na modernidade, na confiança e na individualidade. A atitude outsider da Richard James em relação à Savile Row reflete a abordagem da Mango de reinterpretar os clássicos, e há também um profundo respeito mútuo pelo artesanato — por isso, a combinação pareceu natural desde o início.
Contem-nos o que imaginaram, cada um separadamente – para esta coleção?
RP: Desde o início, ambos imaginámos o mesmo objetivo: trazer a atitude da Savile Row para o guarda-roupa real do dia a dia. Para a Mango Man, a visão era traduzir a confiança e a elegância da alfaiataria tradicional numa proposta moderna e fácil de usar – peças que podem ser usadas em ocasiões formais, mas também separadas e combinadas de forma casual. Do lado de Richard James, tratava-se de manter a personalidade ousada da marca - cor, textura, um toque ligeiramente arrojado - , tornando-a acessível através do pronto-a-vestir. Em suma, imaginámos uma coleção com um ponto de vista claro: contemporânea, versátil e cheia de personalidade.
Toby Lamb: Do meu lado, tratava-se de destilar os nossos valores, desde o corte e a proporção até ao uso da cor e de um certo sentido de diversão, e transformá-lo em algo mais democrático, sem perder a integridade. A Mango trouxe uma perspetiva global e de estilo de vida. Juntos, a ambição era clara: criar alfaiataria que parecesse contemporânea, fácil de usar e emocionalmente relevante. Um fato que se quer vestir, em vez de um que se sente obrigado a usar.
Trabalharam juntos nesta coleção ou Toby Lamb teve total liberdade para criar?
RP: Foi uma verdadeira colaboração. Gostámos muito das nossas primeiras visitas ao atelier — ver o corte dos padrões, as amostras, o trabalho artesanal. Foi aí que compreendemos totalmente a silhueta e a atitude da Richard James. O que também foi interessante é que rapidamente percebemos que já tínhamos muito em comum. Partilhamos vários fornecedores de tecidos italianos e descobrimos que ambos trabalhamos com a Vitale Barberis Canonico [empresa italiana no setor da lã da família Barberis Canonico, nascida em 1663] criou uma forte ligação desde o início.
Há alguma peça, ou inspiração, nesta coleção, de que tivesse gostado em particular?
RP: O casaco Burlington resume bem toda a colaboração. Tem as suas raízes na alfaiataria contemporânea, mas transmite uma sensação descontraída: é trespassado, tem bolsos de remendo e é confecionado num tecido xadrez subtil e texturado. O que a torna especial é a sua versatilidade, os ombros são estruturados o suficiente para lhe dar forma sem parecer rígida, e a lapela tem uma presença marcante. Combina tão bem com calças feitas à medida como com jeans ou malhas. Isso reflete exatamente a nossa filosofia: não se trata de fazer uma declaração ousada, mas sim de dar ao utilizador uma confiança discreta.
O que torna a alfaiataria tão especial? O que seduz neste visual tão elegante e pristino?
TL: A alfaiataria muda a forma como se posiciona, como se move, como se comporta. Não se trata de formalidade, mas de intenção. Um casaco bem cortado transmite clareza e confiança. Sempre me senti atraído por essa autoridade discreta, nada forçada, nada exagerada, apenas presença.
RP: É a combinação de habilidade, proporção e atitude. Uma boa peça de alfaiataria muda a forma como se posiciona e se move — dá-lhe presença. O que nos seduz num visual elegante é que transmite confiança sem precisar de ser exagerado. E hoje em dia, a alfaiataria não se limita a ocasiões formais: está a tornar-se relevante novamente porque as pessoas querem usá-la no dia a dia, com um estilo mais descontraído e pessoal.
Depois de o desporto ter conquistado o mundo da moda, nos últimos anos, será que queremos agora regressar aos clássicos? Eles nunca saem de moda e precisamos confiar na tradição?
RP: Sim, há definitivamente uma apreciação renovada pelos clássicos, precisamente porque eles têm longevidade. Mas o que é interessante agora é que «confiar na tradição» não significa usá-la de maneira tradicional. A mudança está no estilo: alfaiataria com t-shirts, malhas, sapatos confortáveis e quebrar o fato. É isso que faz com que pareça moderno novamente: códigos tradicionais, mas usados com liberdade.
TL: Eu não acho que se trate de voltar atrás, mas sim de equilíbrio. O vestuário desportivo ensinou-nos o conforto, a alfaiataria traz significado. A tradição não é algo de que se deve fugir, é algo que se deve reinterpretar. Quando a tradição evolui naturalmente, torna-se novamente intemporal.
O Toby formou-se na Central Saint Martins de Londres, de onde vieram os designers de moda mais loucos e criativos, mas também os mais unânimes e geniais como McQueen e Galliano, Phoebe Philo e Stella McCartney. Mas o decidiu seguir a alfaiataria, precisamente. Porquê?
TL: Na Central Saint Martins, somos incentivados a questionar tudo: forma, propósito, identidade. Para mim, a alfaiataria parecia o lugar mais radical para fazer isso. Um fato é uma das peças de roupa mais reconhecíveis do mundo, mas ainda assim tem espaço infinito para interpretação. Fiquei fascinado com a ideia de que, dentro de algo tão estruturado, fosse possível expressar personalidade, rebeldia e até emoção.
Savile Row é uma referência, sinónimo de alfaiataria, em Londres e no mundo inteiro. Como é que lutou contra uma certa imagem antiquada? Com texturas, cores e novos cortes?
TL: Respeitando as regras e, depois, subvertendo-as discretamente. A cor, a textura e a silhueta sempre fizeram parte da nossa estética e continuamos a seguir essa filosofia até hoje. Somos conhecidos pela nossa alfaiataria britânica moderna e pelo uso de tecidos por vezes inesperados. Quando as pessoas vêem um fato usado com atitude, em vez de cerimonialmente, a imagem tradicional que talvez tenham da marca desaparece instantaneamente.
É mais difícil inovar ou assumir riscos criativos em relação aos clássicos ou, pelo contrário, isso pode ser uma tela fácil, particularmente para as novas gerações?
TL: Os clássicos são, na verdade, a melhor tela. Quando algo é tão bem compreendido, mesmo a menor mudança pode parecer significativa. Um ombro ligeiramente mais suave, mas pronunciado, uma postura descontraída, um forro surpreendente, esses detalhes são importantes. As gerações mais jovens compreendem isso instintivamente. Não vêem a alfaiataria como algo fixo, mas sim como algo modular, adaptável e pessoal. É aí que a inovação realmente acontece.
Será que os homens algum dia se libertarão das “restrições profissionais” do fato, onde se sentem confortáveis porque lhe confere poder?
RP: O fato está a deixar de ser um uniforme de trabalho rígido. Durante muito tempo, foi associado principalmente a negócios ou ocasiões especiais, mas agora está a tornar-se uma escolha em vez de uma restrição. Quando bem feito, e com um estilo mais pessoal, pode dar poder: confere estrutura, confiança e identidade. O segredo é que os homens podem decidir como usá-lo, em vez de sentirem que têm de fazê-lo.
TL: O fato já não é um uniforme, mas uma escolha pessoal. É aí que reside o seu poder hoje em dia. Quando alguém opta por usar um fato, geralmente é porque quer sentir-se mais elegante, mais concentrado, mais ele próprio. Essa sensação de empoderamento não desapareceu, apenas se tornou mais pessoal.
A alfaiataria tornou-se mais flexível na mudança dos tempos, como vai evoluir nos próximos anos? Os jovens estão interessados em fatos, como os seus pais ou avós estavam?
TL: Os homens mais jovens estão absolutamente interessados, mas nos seus próprios termos. Eles combinam fatos com malhas, ténis e t-shirts. Eles misturam a alfaiataria nos seus guarda-roupas, em vez de construir um guarda-roupa em torno dela. A tendência atual é confiança sem rigidez, elegância sem esforço.
RP: A alfaiataria continuará a evoluir no sentido da versatilidade e de uma atitude mais descontraída. A maior mudança não é apenas no produto, mas na forma como é usado. É menos “camisa e gravata” e mais misturar peças de alfaiataria com peças casuais, brincando com textura, cor e proporção. Os clientes mais jovens estão interessados, mas de forma diferente das gerações anteriores, são atraídos pela alfaiataria quando ela parece contemporânea, expressiva e adaptável à vida quotidiana. A tendência é sobre individualidade e confiança do que formalidade.
E como é que um olho comum pode identificar o savoir faire de Saville Road ao olhar para um casaco, por exemplo?
TL: Está na forma como o casaco se comporta. Na forma como assenta, como se move quando se anda, como se sente quando se veste. Um bom casaco não o restringe, acompanha-o. Mesmo sem conhecer a linguagem técnica, as pessoas reconhecem o conforto, o equilíbrio e a confiança. É um trabalho artesanal que se sente, não se vê apenas.
Está na Richard James há muito tempo, primeiro como assistente do próprio, por isso deve guardar algum conselho que continua a recordar e o faz confiar nos seus instintos?
TL: O Richard dizia sempre: "Confie nos seus olhos". As tendências passam, as opiniões mudam, mas o instinto é algo que se ganha com o tempo. Essa lição ficou comigo: se algo parece certo do ponto de vista criativo, geralmente é.
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