Conversas

Entrevista Emili Rosales: “Ruiz Zafón não pensou este livro como uma despedida”

“A Cidade de Vapor” é a obra póstuma do escritor Carlos Ruiz Zafón que acaba de chegar às livrarias portuguesas. São 11 contos num livro que é também uma homenagem aos leitores do popular escritor espanhol que morreu em 2020. Falámos com Emili Rosales, o editor que acompanhou Zafón ao longo dos últimos anos.

Foto: David Ramos
05 de janeiro de 2021 | Joana Moreira

Como é que conheceu o escritor e como começaram a trabalhar juntos?

Bem, o primeiro contacto vem de há muito tempo, desde o ano 2000. Carlos Ruiz Zafón lançou um romance que depois se viria a tornar todo um acontecimento mundial, que era A Sombra do Vento. Eu li uma primeira versão desse romance que estava assinada por Julián Carax, que é uma personagem decisiva em toda a tetralogia do Cemitério dos Livros Esquecidos. Falámos do livro, preparámos coisas, o normal ao publicar um romance, fazer correções, etc. O romance publicou-se em maio de 2001, aliás, esta primavera cumprem-se 20 anos, e essa foi a primeira experiência [a trabalhar juntos]. O que me chamou muito à atenção nesse momento foi que o Carlos Ruiz Zafón, no ano 2000, com um primeiro romance escrito, tinha perfeitamente planeado todo o seu plano de publicação dos quatro romances do Cemitério dos Livros Esquecidos, que na realidade acabariam por demorar 16 anos para que fossem escritos.

Qual foi a sua primeira impressão?

Achei que Carlos Ruiz Zafón era uma pessoa completamente determinada em escrever os livros e a defende-los também. Tinha claramente uma vocação literária. Aliás, conheci-o no ano 2000, mas em 1993 ele era uma pessoa de muito êxito no mundo publicitário, era um génio, e ainda assim decidiu abandonar esse setor, essa atividade, e ir para os Estados Unidos para escrever. Durante um tempo, nos anos 90, combinou a escrita de literatura com a escrita de guiões cinematográficos. A partir de 98-2000 é que se dedicou completamente à literatura. Isso via-se claramente no seu caráter. Aquilo de que ele mais gostava era escrever, fazer vida de escritor. Ouvia música, interessava-se pela fotografia, pela arquitetura, como, aliás, se percebe pelos seus livros. Era uma pessoa tranquila, reservada, sem ser excessivamente reservada.

Enquanto editor tem alguma história caricata que tenha vivido com ele?

Ele era reservado. Tinha consciência de que o que queria era oferecer os seus livros e não a sua vida diária. Mas com os amigos era uma pessoa muito divertida, muito comunicativa. Era um grande comunicador e um grande contador de histórias. Era um storyteller. Qualquer pequena anedota diária que lhe tivesse acontecido conseguia construir a partir dali uma história maravilhosa, exagerada e apaixonante. Comer com ele ou reunir com ele e com os amigos era uma autêntica festa no sentido em que gostava de contar histórias, de fazer imitações de personagens públicas famosas…

Emili Rosales
Emili Rosales Foto: D.R.

Qual é o primeiro nome que lhe vem à memória quando pensa nessas imitações?

Não lhe posso dizer (risos). Não, não. Era sem maldade, mas era muito divertido. Também gostava de tocar piano e de compor. Esta era a vida tranquila que ele escolhera. Aliás, foi para Los Angeles e saiu de Barcelona precisamente quando Barcelona se estava a tornar numa cidade muito ativa, e ele queria estar tranquilo para escrever. E conseguiu. Escreveu obras maravilhosas que todo o mundo leu.

Como surgiu a ideia deste novo livro?

É uma história muito bonita, ainda que também triste. Ao terminar o último romance, no outono de 2016, com a publicação d’O Labirinto dos Espíritos, nesse momento Carlos tinha algumas histórias breves que tinha publicado em edições muito restritas, em jornais ou em edições separadas para edições especiais, tinha alguns contos, e tinha alguns contos que eram inéditos. Enviou-me os que eram inéditos e propôs-me que começássemos a preparar um livro com estas histórias. Que propósito tinha isto? Bem, tinha um propósito claro que era o de compilar estas histórias, mas tinha sobretudo a intenção de ser uma espécie de presente, de homenagem, aos seus leitores. Tinha a sensação de que tinham tido muita paciência. Haviam estado 16 anos seguindo-o com a publicação dos quatro romances. E ele achava que tinha chegado o momento de fazer uma espécie de homenagem aos seus leitores. (…)

Por desgraça, o que aconteceu foi que chegou a doença e não pudemos publicar o livro. Ao preparar este livro, aquilo que se dá conta, e pode-se comprová-lo enquanto leitor, é que não é simplesmente uma compilação de histórias, é muito mais. É um puzzle que quando vamos unindo as histórias e pondo-as na ordem correta e na cronologia adequada… surge uma nova história. A Cidade do Vapor é um livro, não é uma coleção de contos. É uma nova viagem, um convite ao Cemitério dos Livros Esquecidos. Ou porque nos mostra personagens em situações que não tínhamos visto, ou porque nos convida a entrar de novo em espaços desse mundo literário, ou por uma relação quase poética, em alguns contos. É um puzzle que quando se vai ordenando nos dá uma imagem surpreendentemente nítida. Essa imagem é essa cidade de vapor que Carlos sempre sonhou como a sua Barcelona sonhada e inventada.

A Cidade de Vapor, de Carlos Ruiz Zafón, € 18,50, Editorial Planeta
A Cidade de Vapor, de Carlos Ruiz Zafón, € 18,50, Editorial Planeta

O livro é uma chave de um labirinto literário.

Absolutamente. Por um lado, este livro é uma carta de amor de Carlos Ruiz Zafón aos seus leitores. Por outro lado, é um mapa da cidade secreta, do mundo literário. Carlos dizia que os quatro romances eram portas distintas para entrar no edifício comum a todos. Este livro se não é uma porta quiçá seja uma janela para entrar nesse mesmo edifício.

Tendo começado como um livro em jeito de homenagem, lê-lo agora, não torna impossível não o ver também como uma despedida?

Ruiz Zafón não pensou este livro como uma despedida para os seus leitores, mas do mundo literário do Cemitério dos Livros Esquecidos, porque esse mundo já estava fechado. Ele pensava já noutros mundos literários. Mas antes de passar para um novo universo de ficção, este livro, sim, era uma despedida.

Online multiplicam-se comentários de fãs emocionados por saber que é o último livro que lerão do autor.

É comovedor. As frases e as resenhas que os leitores escrevem nas redes sociais e em todo o lado… É muito impressionante e dá ideia do enorme carinho e admiração que tinham pelo escritor. Neste volume, além dos contos, quisemos ter um pequeno apanhado das críticas excecionais que os seus livros receberam em suplementos literários dos jornais mais exigentes de todo o mundo. Queríamos que se visse essa dupla faceta que era excecional: por um lado [era] enormemente popular, nos cinco continentes, e, por outro lado, [era] enormemente apreciado pela crítica.

Este é, de facto, o último "encontro" do autor com os leitores, ou há mais inéditos por revelar?

Não, creio que esta é, como dizia, a despedida. E um convite a voltar a começar. Os romances de Ruiz Zafón têm um caracter cíclico, quando se acaba de ler O Labirinto dos Espíritos é-se convidado a começar pel’A Sombra do Vento. E este livro também tem esse caráter, não só com as quatro novelas da tetralogia, mas também com os quatro romances juvenis que [Zafón] escreveu anteriormente. Não me consta que tenha escrito nada mais, por isso este é o seu último livro.

Saiba mais atualidade, artes, literatura, Carlos Ruiz Zafón, escritor, Barcelona, perda, morte, 2020, A Cidade de Vapor, livro, Emili Rosales, editor
Relacionadas

João Tordo, a insustentável leveza de o ser

Ao décimo segundo livro, dificilmente ouviremos falar de literatura com a paixão que João Tordo emprega. Descubra o que o move e porque escolhe ser escritor numa época que quer, à viva força, condenar a Literatura.

Mais Lidas
Conversas Ian Schrager, o rei da noite que acabou atrás das grades

O Studio 54, a mais famosa discoteca de sempre, não enchia apenas em tempo de férias. Foi uma roda-viva todo o ano e durante anos. Ian Schrager, tal como o sócio Steve Rubell, enriqueceu como “rei da noite” de Nova Iorque com a discoteca a abarrotar de celebridades, desde Warhol a Jagger. Com mais de 70 anos, Schrager relembra o apogeu do Studio 54 e por que razão acabou numa cela da prisão.