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Walk that Walk & Talk that Talk: ande a pé e torne-se mais criativo

Já se sabe de cor a regra dos dez mil passos. Sabe-se que andar a pé acelera o metabolismo, que faz bem ao coração e que ainda aumenta a longevidade. Porém, ninguém se lembra das maravilhas que uma caminhada pode fazer à criatividade — ou à falta dela. Sente-se bloqueado? Leve o seu cérebro a passear.

Foto: Unsplash
07 de fevereiro de 2020 | Pureza Fleming

"Como é vaidoso alguém sentar-se para escrever quando não se levanta para viver", escreveu no seu diário o autor norte americano Henry David Thoreau (1817-1862). "Parece que, no momento em que as minhas pernas começam a mover-se, os meus pensamentos começam a fluir", arrematou. O escritor inglês, Thomas DeQuincey (1785-1859), por sua vez, calculou que o poeta britânico William Wordsworth (1770-1850) — cuja poesia vagueia, permanentemente, entre montanhas, florestas e vias públicas — andou até cerca de cento e oitenta mil milhas ao longo da sua vida, o que perfaz uma média de seis milhas e meia por dia, contado a partir dos cinco anos. Na edição de Natal da Vogue americana, em 1969, Vladimir Nabokov sugeriu que, para melhor se compreender Ulisses, de James Joyce, o ideal seria que os professores responsáveis por ensinar a obra preparassem "mapas de Dublin com os itinerários [dos personagens] Bloom e Stephen bem demarcados".

Várias décadas mais tarde, um professor de inglês do Boston College, nos Estados Unidos, chamado Joseph Nugent, e os seus colegas, desenharam um mapa anotado do Google que acompanhava Stephen Dedalus e Leopold Bloom passo a passo. A Sociedade Virginia Woolf, na Grã-Bretanha, assim como os estudantes do Instituto de Tecnologia da Geórgia, reconstruíram, da mesma forma, os caminhos da Sra. Dalloway, por Londres. A literatura está repleta de transeuntes solitários que passeiam, anonimamente, por entre as multidões da cidade, observando o rosto das pessoas e imaginando as suas vidas e os seus sonhos. Mas por que motivo tanto andam os escritores? Um professor de reportagem que tive disse-me, certo dia, a propósito de uma conversa onde me queixava (cansada) de que "toda a minha vida era feita a pé" — ou seja, sem carro: "Um bom jornalista ou um bom escritor será sempre alguém que anda a pé". Essa frase marcou-me. Tal como clamava Henry David Thoreau na citação acima, a vida real não acontece entre as quatro paredes de uma casa, de um carro ou sequer de um escritório. E a realidade é que muitas boas ideias já me surgiram enquanto caminho; resmas de conclusões já me assaltaram o cérebro entre um passeio e o outro; e, sem dúvida alguma, incontáveis textos que publiquei começaram a ser escritos na minha mente — e depois, nas notas do telemóvel — a caminho de um destino qualquer. A pé, claro. A ciência explica porquê: quando caminhamos, o coração bombeia mais rápido, fazendo circular mais sangue e oxigénio, não somente para os músculos, mas também para todos os restantes órgãos — o cérebro inclusive. Estudos demonstraram que, após ou durante o exercício, mesmo com esforço muito leve, as pessoas apresentam um melhor desempenho em testes de memória e de atenção.

Andar regularmente também promove novas conexões entre as células cerebrais, evita o enfraquecimento do tecido cerebral que acompanha a idade, aumenta o volume do hipocampo (uma região cerebral crucial para a memória) e eleva os níveis de moléculas que estimulam o crescimento de novos neurónios e a transmissão de mensagens entre si. A maneira como movemos o nosso corpo muda ainda mais a natureza dos nossos pensamentos e vice-versa. Psicólogos especializados em música ergométrica (a ergometria é a ciência que mede a quantidade de trabalho realizado pelo corpo durante um exercício físico) quantificaram o que muitos de nós já sabemos: ouvir músicas com um ritmo acelerado motiva-nos a correr mais depressa. Da mesma forma, quando os condutores ouvem música alta e acelerada acabam, de uma maneira inconsciente, por pisar um bocadinho mais no pedal do acelerador. Andar ao nosso próprio ritmo cria um ciclo de feedback não adulterado entre o ritmo do nosso corpo e o nosso estado mental, algo que não conseguimos experimentar com tanta facilidade quando estamos a correr para o ginásio, a dirigir um carro, a andar de bicicleta ou durante qualquer outro tipo de locomoção. Quando passeamos, o ritmo dos nossos pés vacila, naturalmente, com o nosso humor e com a cadência da nossa fala interior; em simultâneo, podemos mudar ativamente o ritmo dos nossos pensamentos, caminhando deliberadamente de forma mais acelerada ou diminuindo a velocidade. Outros estudos demonstraram que existem variantes que devem ser levadas em conta quando o assunto é ter ideias enquanto se caminha versus ficar-se sentado à espera que estas surjam. Tudo indica que "depende". Depende se o projeto exige ou não criatividade, depende da intensidade do esforço físico e depende até se o percurso efectuado a pé é serpenteado ou se é feito em linha reta.

Para perceberem se a caminhada casual aumentaria a criatividade, Marily Oppezzo e Daniel Schwartz, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, desafiaram as pessoas a pensarem em novas ideias enquanto estavam sentadas numa mesa ou a andar numa esteira confortavelmente e ao seu próprio ritmo. O estudo, que foi publicado no Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition, demonstrou que as pessoas que se saíam melhor eram aquelas que caminhavam, ao invés das que ficavam sentadas. Os pesquisadores mediram a criatividade através de uma técnica que é conhecida pelo nome de Uso Alternativo. Joy Paul Guilford e os seus colegas desenvolveram-na anos antes para avaliar pensamentos divergentes, apresentando ideias que se desviavam do comum. Por exemplo, de quantas maneiras se pode utilizar uma caneta (além de escrever)? Podemos usá-la para prender o cabelo. No passado, para rebobinar uma cassete — pode continuar a pensar em ideias criativas, caro leitor, mas passemos à explicação. Para entender o processo, são contados o número de usos viáveis ??mencionados (afluência), a quantidade de diferentes tipos de usos (flexibilidade) e o quão incomum as respostas foram (originalidade). Os pesquisadores de Stanford combinaram esses ingredientes e definiram ideias criativas como usos viáveis ??que eram incomuns (ou seja, não listados por outras pessoas no estudo) — e descobriram que as pessoas tinham mais ideias criativas enquanto caminhavam do que sentadas. A cereja no topo do bolo é que os efeitos da caminhada prolongaram-se por algum tempo; as pessoas que se sentaram depois de caminhar saíram-se melhor do que aquelas que estiveram sentadas o tempo todo. Ou seja, não há necessidade de fazer o trabalho enquanto caminha — e arriscar-se a levar com um carro em cima enquanto passa para as notas do telemóvel, de forma desenfreada, todas as ideias luminosas que não param de brotar do seu cérebro, quais janelas pop up.

 

Na Ted Talk intitulada "Want to be more creative? Go for a walk", Marily Oppezzo dá cinco conselhos de como ter ideias ao longo de uma caminhada.

 

  • Escolha um tópico para o brainstorm: não é como estar no duche e "ver" uma ideia surgir do nada; é pensar, intencionalmente, numa perspectiva diferente relativamente a qualquer coisa.
  • "Posso correr em vez de andar?": "Se eu tivesse de ter uma ideia enquanto estivesse a correr, a única ideia que eu teria era parar de correr", brinca Esta tem de ser uma atividade física em que não se tenha de pensar muito, como é o caso da caminhada. Ande da forma o mais confortável possível enquanto está em brainstorming.
  • Quantas mais ideias, melhor: continue a deixá-las surgir e não fique preso à primeira ideia que aparecer.
  • "Fale" com o seu gravador: escrever é, por si só, um filtro, pois temos de pensar antes de escrever. Grave o maior número possível de pensamentos.
  • Limite o seu tempo: não permaneça na caminhada para sempre. Se as ideais não saírem naquele momento, pare e regresse numa outra altura.

 

Saiba mais andar, excercício, criatividade, Estados Unidos, Thomas DeQuincey, Vladimir Nabokov
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