Viver

Os grandes magnatas da bola

Quando se tem uma mansão principal, uma colecção de arte moderna, um jacto privado, uma garagem cheia de ‘bombas’ e mega-iates ancorados no Mónaco e em St. Barths, que ‘brinquedo’ comprar a seguir? A resposta é simples: um clube de futebol.

Foto: Getty Images
19 de novembro de 2019 | Bruno Lobo

Quando a ‘redonda’ rolar nos relvados da Rússia, teremos, com certeza, um espectador privilegiado em Abramovitch, o oligarca que comprou o Chelsea e inaugurou toda uma ‘onda’ de milionários vindos dos quatro cantos do mundo a despejar sacos de dinheiro nos velhos clubes europeus. Muitas vezes com óptimos resultados desportivos, diga-se, mas fazendo disparar as transferências para valores sem precedentes. Fundado em 1905, o Chelsea podia ser um dos mais respeitados clubes ingleses, mas tinha ganho apenas um campeonato na sua centenária história até chegar o homem de Chukotka, que fica para lá de onde as chuteiras congelam, no extremo oriental da Rússia. Desde então, os londrinos já venceram vários campeonatos, três deles com o nosso ‘Special One’, ligas europeias – dos Campeões e da Europa – e uma mão cheia de Taças de Inglaterra, uma delas contra o próprio Mourinho. A verdade é que Abramovitch chegou cedo, há mais de 15 anos, pelo que conseguiu entrar barato, mas já nessa altura avisou: "É o início de uma invasão de super-ricos." Comprou o clube londrino por 120 milhões de libras, que não passaram de uma gota no rio Roman: 1,1 mil milhões de libras, só em contratações. Em 2008, cinco anos depois de Abramovitch, chegava a vez do sheik Mansour, da família real de Abu Dabi, pagar 210 milhões por um clube profundamente endividado. Mais uma vez, e só em contratações posteriores, o Manchester City ultrapassou em muito esse valor: outros mil milhões de libras. Os bolsos do sheik, cuja fortuna se confunde com a da família liderada pelo irmão, o emir dos Emirados, parecem ainda mais fundos do que os do oligarca e, uma vez mais, o sucesso desportivo não tardou em chegar, conquistando três campeonatos ingleses.

Do outro lado da mancha, o Qatar delineava a mesma estratégia do emirado vizinho e rival, tomando conta do Paris Saint-Germain. O fundo Oryx gere os investimentos desportivos do emir Tamim bin Hamad al-Thani, o qual também não é comedido: só no ano passado contratou os dois jogadores mais caros da história do futebol, Neymar (222 milhões de euros) e Mbappe (180 milhões). Parece que os investimentos no PSG vão aumentado à medida que se aproxima o Mundial de Futebol – não o russo, mas o outro, no Qatar, em 2022. Não foi há muito tempo que a BBC perguntou "Mas quem compra um clube de futebol, por amor de Deus?", antes de responder "Porque parece que é muito fácil ganhar um milhão. Basta perder dois". O Financial Times é ligeiramente menos cáustico, mas cita o director financeiro do Chelsea: "O investimento no desporto vem primeiro da paixão e só depois da procura do lucro. Pode fazer-se dinheiro, mas poucos o conseguem de uma forma consistente e tem havido mais perdedores do que vencedores." A não ser que o investimento seja para a vida.

Não dizem que o futebol é uma arte?

Para os amantes do belo jogo, podemos comparar o Futebol a outras artes como a pintura, cujo mercado mundial está igualmente exponenciado e onde os tradicionais investidores americanos e europeus se viram também suplantados pelos novos buyers do Médio Oriente e da Ásia. Aqui passa-se o mesmo e podemos somar os dois colossos de Milão aos activos chineses, na Europa: O Inter, adquirido pela Sunning, uma das maiores empresas de retalho da China; e o AC Milan que foi adquirido, pouco depois, por um desconhecido, Li Yonghong, a Silvio Berlusconi por 740 milhões de euros. Tantos milhões dão para muitas ‘bunga bunga parties’, mas a julgar pelas críticas constantes ao novo Milan, o ex-primeiro ministro parece estar um pouco arrependido com a venda. Em Inglaterra, até o muito modesto Wolverhampton Wanderers foi alvo da cobiça dos gigantes da Fosun, tendo sido comprado por 45 milhões de libras. Exactamente porquê ninguém sabe ao certo. Mas também ninguém percebeu muito bem quando o director desportivo da Fiorentina, Pantaleo Corvino, comparou alguns dos seus jogadores (Stevan Jovetic, Graziano Pelle ou Mirko Vucinic) a movimentos artísticos como o Minimalismo e a Arte Povera. Todos, menos talvez o actual treinador da equipa, Stefano Pioli, que gosta de preparar os jogos na Galleria degli Uffizi, rodeado de obras de arte. É o que dá viver em Florença. Já os seus adeptos é que parecem pouco interessados em arte, criticando os irmãos Della Valle, donos do clube e da marca de moda Tod’s, por não investirem o suficiente no clube: "Vendam-no a quem queira investir", proclamam.  

A Velha Senhora e L’Avvocato

De Edoardo a Andrea Agnelli, avô e neto, dista quase um século, mas foram ambos presidentes da Juventus e a ligação entre a família e o clube parece inquebrável. Por muitos milionários, oligarcas ou sheiks que apareçam. A Juventus nasceu em Turim, em 1897, dois anos antes de Giovanni Agnelli ali fundar a Fiat, mas os caminhos só se cruzaram em 1923 pela mão de Edoardo, filho de Giovanni, a quem o clube ainda credita a transformação da Vecchia Signora no mais bem-sucedido do futebol italiano. Edoardo ocupou a presidência entre 1923 e 1935, ano em que faleceu num acidente de aviação, não sem antes passar aos seus filhos a paixão pela Juve. Um ficaria conhecido por L’Avvocato. Chegou a controlar mais de um quarto da bolsa de valores italiana e a sua fortuna representava cerca de 4,4 por cento do PIB do país. Era, obviamente, o homem mais rico de Itália. O grupo de empresas, extenso e diversificado, ia do sector da  alimentação à imprensa (jornais La Stampa e Corriere della Sera) e empregava cerca de 360 mil pessoas, o grosso das quais no sector automóvel, onde reinavam nomes como os da Fiat, da Alfa Romeo, da Lancia e da Ferrari. Era inteligente, rico, bem-sucedido, bem vestido e bem-parecido, um dos homens mais admirados e copiados de Itália. Tornou-se, por isso, perfeitamente normal que opinasse um pouco sobre tudo, da economia ao estilo e à moda, da política ao futebol, claro, porque aí residia o seu ‘primeiro amor’, a Juventus. "Fico emocionado sempre que vejo a letra J num jornal porque penso imediatamente na Juventus." Gianni Agnelli preparou-se até 1966 para assumir a liderança do grupo empresarial, deixada livre após a morte do avô, em 1945. Mas logo em 1947, com apenas 25 anos, não resistiu e assumiu a liderança da Juventus, cargo que ocupou até 1954 – e pelo qual também passou o seu irmão mais novo, Umberto, pai do actual presidente do clube. Por mais ocupado que estivesse era raríssimo perder um jogo e era frequente Gianni, L’Avvocato, aterrar de helicóptero no centro de treinos para conversar com os jogadores. E todos os dias, todos (!), invariavelmente às seis horas da manhã, ligava ao presidente do clube, Giampiero Boniperti (1971-1990), para se inteirar das matérias. E todos os anos convidava a equipa para a casa da família, em Villa Pedrosa, onde existe um campo de futebol, no qual organizava amigáveis, com outras equipas ou os sub-21, tradição que o clube ainda mantém.  

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