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Reflexão. O avião de Ronaldo - ou como o País ficou parado, a olhar para o ar

“O problema aqui não é o futebol. O problema aqui não é, sequer, o Cristiano Ronaldo, com tudo o que tem de louvável e possa ter de criticável. Nada disso. O problema aqui é o País ter parado para ver o aviãozinho desenhado no mapa.” Mais um comentário inútil sobre o assunto irrelevante para o qual não conseguimos deixar de olhar.

Jogadores da seleção portuguesa em treino
Jogadores da seleção portuguesa em treino Foto: Getty Images
01 de outubro de 2026 | Diego Armés Adicione como fonte preferencial no Google

Eram cinco da tarde e estavam já comentadores em estúdio a analisar tecnicamente toda a situação. À noite, seria pior. Os cinco canais noticiosos não tinham espaço para mais nenhum tema nem tempo para qualquer outra notícia de última hora: o percurso do jato privado de Cristiano Ronaldo atravessando o território francês em direção, segundo os especialistas, a Madrid, ocupava todas as transmissões.

Não vou ser hipócrita: também eu parei para olhar, com a minha curiosidade mórbida. E também eu sou um fanático da bola, alguém capaz de assistir a 12 jogos de futebol num dia, se for preciso (e, acima de tudo, se for possível). Portanto, o problema aqui não é o futebol. O problema aqui não é, sequer, o Cristiano Ronaldo, que, com tudo o que tem de louvável e possa ter de criticável, andou a dar continuidade à sua vida pessoal e profissional, se é que se pode separar uma da outra. Nada disso. O problema aqui é o País ter parado para ver o aviãozinho desenhado no mapa, a descer desde a Suécia, ao que parece, até Madrid, segundo consta. O problema é termos todos ficado a olhar, a contemplar e a dissertar sobre o assunto. O problema é não passarmos de uns animais remotamente intelectuais, mas passivos e sedentos de entretenimento, seja ele qual for.

Há qualquer coisa de muito errado connosco. E, repito, também eu perco o meu tempo com futebol - e com muito gosto, enorme fervor, toda a paixão e zero arrependimentos ou remorsos. Mas o futebol é um jogo, um evento lúdico num estádio, um momento de comunhão, de confronto, de emoção partilhada ou antagónica, de beleza estética e de catarse. Isto a que ontem se assistiu, e que hoje, ao que tudo indica, continuará a assistir-se, é uma espécie de novela sem grande enredo que nos leva a um exercício de voyeurismo ridículo e barato, superficial, fátuo e bronco. Estamos todos a olhar para um circo repleto de bizarrias como se assistíssemos ao maior espetáculo do mundo.

De repente, Cristiano Ronaldo abandonou o estágio da Seleção e estamos perante reportagens em direto do Andorinhas - digo, Clube de Futebol Andorinhas de Santo António - a perguntar a alguém “o que é que sentem”. Ou ainda diante de intervenções em direto do Rio de Janeiro, a dar conta do que pensa o brasileiro médio acerca do assunto. Ou expostos a mais comentários, produzidos por analistas de renome, especialistas em áreas tão diversas e profundas como uma disciplina chamada assuntos genéricos.

Eu percebo. O Ronaldo mexe-se e faz a indústria andar - seja lá o que isso for, a “indústria”. Mas vende, dá audiências, as pessoas dão atenção, ficam curiosas, colam-se aos ecrãs, sejam os das televisões, os dos computadores ou os dos telefones, perfeitos para fazer scroll a ver memes. Nisto, ouvimos analistas especialistas e jornalistas em direto a afirmar que Jorge Jesus, ainda selecionador nacional à hora a que este texto foi escrito, prometeu a Ronaldo que ele jogava meia-hora.

E aqui andamos nós, a assistir ao mundo em paragem ronaldo-expiatória, incendiados em lume brando com um cocktail Molotov feito de duas partes de curiosidade mórbida para três de schadenfreude. Ou então de corações rasgados, a arrancar cabelos, derramando emoções, lágrimas e lamentos, sem saber por quem torcer agora, quando Portugal jogar à bola - Portugal é a Seleção e a Seleção era o Cristiano. Que será de nós, a partir de hoje, sem Ronaldo, sem seleção e sem pátria?

Enfim, tudo isto podia ter acontecido tal como aconteceu. É a ordem natural das coisas, especialmente se as coisas forem compostas por portugueses e incluírem Jorge Jesus, Cristiano Ronaldo, a Federação e canais noticiosos saturados de guerras, crises da habitação e preços do petróleo. O assunto só não precisava de ter estagnado tudo em redor no espaço noticioso. Não era preciso estarem todos a falar do mesmo em todo o lado e a toda a hora. Nem eu precisava de estar a escrever este texto. Num mundo normal, eu não teria escrito este texto. Peço desculpa.

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