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Festas, drogas e um excecional serviço de quartos: as loucas histórias das celebridades no Chateau Marmont

A instituição de Hollywood foi durante muito tempo palco de casos sexuais, festas loucas e estranhas mortes. Mas terão os seus dias de glória terminado? Por Anthony Brett

21 de maio de 2021

Se o inferno tivesse uma zona VIP, então deveria assemelhar-se um pouco ao Chateau Marmont de Hollywood. O ostentoso estabelecimento de 63 quartos, na Sunset Boulevard (em Los Angeles, West Hollywood), já assistiu a mais do que a sua justa quota-parte de desmoronamento do que há de bom e excelente em Tinseltown [designação informal de Hollywood). A sua máxima "Always a safe haven, always open" [Um eterno porto seguro, sempre aberto] e a sua endiabrada mascote, o lascivo deus grego Pã [também identificado como Fauno ou Silvano], piscam o olho à sua reputação hedonística – que faz do prazer um bem supremo. É um vislumbre da velha Hollywood, antes de esta se tornar conservadora e sóbria.

Pelo menos assim o era. Agora, algumas acusações nada glamorosas estão a manchar a reputação do estabelecimento. Em 2017, o The New York Times reportou denúncias contra o proprietário do hotel, Andre Balazs, e alegou que o seu estilo de gestão permitiu que se perpetuasse uma cultura tóxica de racismo e assédio sexual. (Balazs negou).

A fachada do hotel Chateau Marmont
A fachada do hotel Chateau Marmont

 E, em março de 2020, numa altura em que a covid-19 devastava a indústria hoteleira, o Chateau Marmont demitiu 248 funcionários. Esses funcionários organizaram um protesto contra o seu despedimento e condições de trabalho, ao passo que outros estão a alegar ser alvo de tratamento racista, tanto por parte dos hóspedes como da administração do hotel. E isso poderá vir a ter sérias consequências para o estabelecimento: a título de exemplo, Aaron Sorkin, o argumentista que realizou o filme The Trial of the Chicago 7 [Os 7 de Chicago], abandonou o local – que era onde estava a pensar rodar o seu novo filme, Being the Ricardos – em solidariedade para com os trabalhadores. E agora há celebridades como Jane Fonda, Amanda Seyfried, Sarah Silverman e Edie Falco a juntarem os seus nomes a uma petição de apoio aos funcionários do hotel.

Mas, se este for o fim da estrada para o Chateau Marmont na forma como o conhecemos, ele deixará um legado e tanto. Eis alguns dos seus destaques de maior relevo.

As pervertidas festas de visionamento de Howard Hughes

Quando ficava hospedado no Chateau, parece que o célebre e doido multimilionário Howard Hughes insistia em ficar num quarto com vista para a piscina, passando muitos dias no seu interior, a analisar as várias jovens modelos que ali apanhavam sol.

Quando gostava realmente de alguma, diz-se que telefonava para a receção, que então informava uma das belas mulheres sobre o interesse de Hughes, ao mesmo tempo que aludia a um potencial papel que poderia vir a ter num dos seus filmes se visitasse o seu quarto. Não se sabe se as promessas de Hughes alguma vez foram cumpridas. Que delícia.

Howard Hughes e Jean Harlow nos anos 30
Howard Hughes e Jean Harlow nos anos 30

O caso deveras inapropriado de Natalie Wood

Aos 16 anos, Natalie Wood estava ansiosa por dissociar o seu nome da celebridade infantil em que se tinha tornado, pelo que teve um caso com o realizador Nicholas Ray, de 44 anos. "Caso" não será, provavelmente, o melhor termo para isso.

Os dois transformaram um bungalow do Chateau Marmont no seu próprio refúgio de sexo/escritório de casting para o filme Rebel without a cause (Fúria de viver), enfurecendo o então namorado de Natalie Wood, Dennis Hopper.

Mas Natalie Wood parecia satisfeita com tudo aquilo. Depois de se ver envolvida num pequeno acidente de carro com Hopper pouco antes de ser escolhida para o elenco do filme, um médico terá, alegadamente, dito que ela era uma "maldita delinquente juvenil". Radiante, ela gritou a Ray: "Ouviste o que ele me chamou, Nick? Ele disse que eu era uma maldita delinquente juvenil! Agora consigo o papel?"

Natalie Wood e Dennis Hopper em 1956
Natalie Wood e Dennis Hopper em 1956

A elaborada audição de James Dean

James Dean, desejoso de provar que poderia ser convincente no papel de Jim Stark [protagonista do filme Fúria de viver], terá saltado de uma janela para impressionar o realizador Nicholas Ray e Natalie Wood, tendo conseguido ficar com o papel.

O Chateau acabou por se tornar um ninho de experiências sexuais enquanto decorria, perto dali, a rodagem do filme – e tanto Dean como Ray terão, alegadamente, tido casos com o ator Sal Mineo (pelo menos segundo o célebre romancista extravagante Gore Vidal), ao mesmo tempo que Natalie Wood saltitava entre o seu realizador, Nicholas Ray, e o seu namorado, Dennis Hopper.

A queda quase fatal de Jim Morrison

Num incidente onde ele dizia ter "gasto a oitava das [suas] nove vidas", o vocalista da banda rock The Doors, Jim Morrinson, altamente drogado, tentou saltar do telhado do Chateau para o seu quarto, somente com a ajuda das tubagens exteriores. Ou, como outros contam, saltou de uma janela do quarto andar para o chão.

Seja qual for a verdade, o salto falhou – o que não é de surpreender –, tendo Morrison ficado com uma lesão permanente nas costas.

Jim Morrison num concerto em 1968
Jim Morrison num concerto em 1968

A volta de mota de John Bonham

Tal como numa cena de qualquer filme sobre estrelas do rock, John Bonham, baterista dos Led Zeppelin, deu de facto uma volta pela receção do Chateau Marmont montado numa Harley Davidson, destruindo por completo a carpete da entrada.

Quando o hotel foi comprado pelo magnata Balazs em 1990, a carpete da entrada principal ainda se aguentava à custa de fita-cola. Foi uma das primeiras coisas a ser substituída.

A diversão, a nu, dos Pink Floyd

Não era invulgar ver nudez em público no Chateau durante a década de 1960, desde Alice Cooper e os seus técnicos de apoio à banda a jogarem futebol todos nus na entrada do hotel até ao elenco do filme Hair, sem qualquer roupa, a ensaiar na sala de estar. Mas poucos foram mais descarados do que os Pink Floyd, que andavam tão à vontade a passearem-se nus pelo hotel e a fazerem festas até altas horas da madrugada que os vizinhos começaram a queixar-se.

"Não é só o barulho", queixou-se um residente de perto do hotel (segundo Raymond Sarlot e Fred E. Basten, no livro Life at the Marmont). "Eles estacionam os seus carros e carrinhas por todo o lado, por isso não conseguimos chegar aos nossos!".

Uma dos rececionistas do hotel acabou depois por telefonar para o quarto dos Pink Floyd a pedir-lhes para terem mais calma, mas o seu discurso foi firmemente interrompido por uma voz misteriosa. "Rock 'n' roll forever!", gritou o homem, antes de desligar o telefone.

A última aparição de John Belushi

Em 1982, John Belushi, ator e comediante do Saturday Night Live, já em plena fase de adição às drogas, passou uma noite na cidade com a cantora de apoio e sua admiradora Cathy Smith e com o escritor de comédias Nelson Lyon, tendo acabado por ir ter ao Chateau Marmont.

Cathy Smith, que era traficante de droga, diz que Belushi lhe pediu para lhe injetar speedballs, uma combinação extremamente perigosa de cocaína e heroína.

Entre os que estiveram no seu quarto naquela noite contam-se Robin Williams e Robert De Niro. Robin Williams terá "snifado" cocaína com o par antes de sair, tendo dito que Cathy Smith parecia uma "marginal". Quando Belushi se sentiu cansado e fraco, Cathy Smith ajudou-o a tomar um duche, antes de sair de cena no seu Mercedes.

Na manhã seguinte, o preparador físico de Belushi chegou ao quarto e encontrou o comediante sem vida, morto por overdose. Cathy Smith foi posteriormente acusada de homicídio qualificado pelo seu contributo ao injetar Belushi com doses fatais de droga, mas conseguiu que a acusação fosse reduzida a homicídio culposo e passou 18 meses atrás das grades.

O encontro de Billy Idol, nu, com a polícia

Numa estranha partida do destino na noite em que John Belushi morreu, Billy Idol – o ícone punk dos anos 1980 – também estava a experimentar a sua própria fusão de substâncias ilícitas num quarto próximo.

"O que normalmente acontecia é que eu beberia meia garrafa de tequilha, entraria em estado comatoso e acordaria algumas horas mais tarde, depois de ter tido pesadelos psicadélicos", recordou ele no seu livro de memórias, Dancing with Myself, publicado em 2014.

Mas depois de o álcool que restava ter sido roubado por um amigo, ele "passou-se" e começou a destruir o seu quarto. "Parti as janelas do bungalow com os meus cotovelos, aos gritos. Destrui o televisor e tudo o que estava mais à mão e que me pareceu bom para atirar ao chão. Eu estava todo nu e coberto de sangue e suor, a dar em doido".

Depois de, uma vez mais, cair inconsciente, acordou a ouvir as sirenes da polícia por todo o hotel, e partiu do princípio de que estavam à procura dele. Saiu do seu quarto, sem roupa, e deu com os agentes da polícia a vasculharem os corredores à procura de provas, tendo ficado então a saber que não estavam ali por causa dele mas sim por causa de Belushi, que tinha acabado de morrer de overdose.

"Depois disso, a gerente do hotel esqueceu-se completamente de mim", disse Billy Idol. "Após lhe enviar um ramo de flores e ter prometido não provocar mais destruição, mudei-me para outro bungalow".

Billy Idol num concerto em 1987
Billy Idol num concerto em 1987

As escapadelas sexuais de Johnny e Kate em todos os quartos

O romance entre Johnny Depp e Kate Moss foi, aparentemente, um percurso consistente de discussões e sexo, discussões e sexo, e discussões e sexo. "Eles não conseguem tirar as mãos, lábios, bocas e pernas um do outro", contou um amigo de Depp à People Magazine em 1994.

E como é que o Chateau Marmont se encaixa no relacionamento de ambos? Bom, Depp contou que o casal teve sexo em todos os quartos do hotel. O que se traduz em 63 quartos individuais para o par praticar o voluptuoso amor dos anos 1990. Ficamos exaustos só de pensar nisso.

Johnny Depp e Kate Moss
Johnny Depp e Kate Moss

A morte trágica de Helmut Newton

Famoso pelas suas fotografias de belas mulheres, algumas numas, entre elas Naomi Campbell, Claudia Schiffer e Catherine Deneuve, Helmut Newton usava regularmente o Chateau Marmont como a sua base operacional para as sessões fotográficas, bem como um lugar para dormir… o que torna ainda mais trágico o grotesco acidente que ali aconteceu e que culminou na sua morte.

Em 2004, Newton estava a sair do parque de estacionamento do hotel quando perdeu o controlo do seu carro, que embateu a toda a velocidade contra uma parede. Foi levado de imediato para o hospital, mas morreu pouco depois. Tinha 83 anos.

Helmut Newton com a modelo Eva Herzigova
Helmut Newton com a modelo Eva Herzigova

A mítica traquinice de Scarlett e Benicio no elevador

Numa indecente lenda urbana, correu durante muito tempo o rumor de que Scarlett Johansson e Benicio Del Toro tiveram sexo no elevador do Chateau Marmont, a seguir à festa de entrega dos Óscares em 2004.

Foi depois veiculado que Johansson tinha admitido publicamente ter tido um caso-relâmpago com o ator, mas as suas citações contextualizadas à revista Allure, em 2004, contam uma história diferente. "Claro que conheço o Benicio, e ele é um tipo fabuloso. Aparentemente estava mais alguém connosco no elevador e nós estávamos a tocar-nos ou a fazer sexo ou algo parecido – algo que considero muito pouco higiénico", disse ela.

Em 2005, a revista Esquire questionou Del Toro sobre esses rumores: "Se alguma vez fiz sexo num elevador com a Scarlett Johansson depois de uma cerimónia dos Óscares? Bom… a verdade é que… não sei. Deixemos isso à imaginação de alguém. Não promovamos essa história. Estou seguro de que já teria acontecido antes. E também poderá não ter sido a última vez. Mas o Chateau Marmont só tem oito andares", respondeu. "Ainda estaria a tentar tirar o meu casaco de cabedal no segundo andar e nem sequer teria ainda tirado a camisa quando chegasse ao sétimo andar".

Johansson esclareceu tudo nesse mesmo ano. "Nunca tive sexo com Benicio Del Toro num elevador", afirmou. "Foi uma afirmação sarcástica que infelizmente fiz a um jornalista. Eu disse: ‘Aparentemente, Benicio Del Toro e eu tivemos sexo num elevador’. E o jornalista publicou isso, tendo depois todos os tablóides retirado a palavra ‘aparentemente’. Estarei a responder a essa pergunta para o resto da minha vida".

O atribulado jantar de Britney

No meio de um prolongado esgotamento, em 2007, Britney Spears foi banida do Chateau Marmont depois de, alegadamente, ter esfregado comida por todo o seu rosto enquanto jantava no restaurante do hotel.

Os outros comensais ficaram horrorizados, incluindo uma alegadamente incomodada Victoria Beckham, que Spears supostamente não terá reconhecido.

A advertência de Courtney Love a Peaches Geldof

Na sequência da morte prematura de Peaches Geldof em 2014, a atriz e estrela do rock Courtney Love recordou um encontro com a socialite no Chateau Marmont, em que ela apareceu no seu quarto com amigos e com comprimidos sujeitos a receita médica.

"A minha droga era a heroína", contou Courtney Love ao The Sun. "Deixei de a tomar nos anos 1990, mas tomava comprimidos – roxicodona, oxicodona [fármacos opióides]. Infelizmente, Peaches estava no meu quarto com uma amiga que tinha um saco cheio desses fármacos, tipo 500 comprimidos, e eu queria muito tomá-los, nunca quis tanto uma coisa; mas não, não ia tomá-los nem dar dinheiro nenhum, por isso empurrei a Peaches e a sua amiga para fora do quarto.

"Eu estava a tremer e não parava de pensar na maneira como a mãe dela tinha morrido [de overdose] e achei que devia isso àquela miúda, tinha de ser um exemplo. Tentei ajudá-la, estava a tentar ser sua mentora, mas, naquela altura da vida dela, isso revelou-se impossível".

As contas por pagar de Lindsay Lohan

Lindsay Lohan viveu no Chateau Marmont durante dois anos e meio no seu auge de finais dos anos 1990. Mas, conscientes da sua reputação de rapariga das festas, os funcionários colocaram-na no quarto n.º 16, que dá diretamente para o balcão de entrada do hotel – pois queriam mantê-la debaixo de olho.

Infelizmente, em 2012 [altura em que ali esteve durante cerca de três meses, durante a rodagem de um filme], Lohan tornou-se uma ameaça de tal ordem que foi expulsa. O diretor-geral Philip Pavel tomou a decisão de impedir a entrada da celebridade nas instalações do hotel depois de várias tentativas para que ela pagasse a fatura de 46.000 dólares desse período de permanência.

Lohan usou e abusou de vários extras do Chateau, incluindo 3.000 dólares do seu minibar, 500 dólares em cigarros e 100 dólares por uma vela presumivelmente chique. Ela culpou a equipa de produção do filme biográfico sobre Elizabeth Taylor, Liz & Dick [onde Lindsay fazia o papel de Taylor], por aquela confusão, dizendo ter partido do princípio de que eles pagariam a conta. Depois de um rápido telefonema ao proprietário do Chateau, Andre Balazs, e de uma oferta para liquidar a sua conta, Lindsay Lohan foi retirada da lista negra do hotel.

A presença de Lindsay Lohan no Chateau Marmont foi também tema de um dos contos divagantes de James Franco, que ele publicou na revista Vice. Por entre estranhas divagações sobre Gus Van Sant e um painel publicitário da Gucci ostentando o seu rosto [porque ele era modelo das roupas, relógios e óculos da marca], Franco recorda uma noite em que uma embriagada Lindsay Lohan terá aparecido no seu quarto de hotel e tentado dormir com ele. Em vez disso, ele acariciou-lhe o cabelo e leu-lhe um pequeno conto de J. D. Salinger, porque ele é… James Franco.

Anthony Brett/The Telegraph/ Atlantico Press

Tradução: Carla Pedro

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