As esculturas vivas de Ruth Asawa
É a melhor desculpa para visitar Bilbao, e o Museu Guggenheim, neste verão: conhecer, até setembro, a beleza de filigrana da obra da japonesa-americana. Das mais interessantes e inovadoras do pós-guerra, para tantos desconhecida.
Que experiência encantatória e de evasão é observar as suas peças detalhistas e delicadas. Inspirada nos padrões da Natureza e adaptando-se às propriedades naturais de cada material, criou esculturas complexas, suspensas ou pousadas delicadamente no chão, trabalhadas a partir de um centro, floral, estrelado ou geométrico, para o exterior, em camadas. Feitas em elos de arame e arame atado, são inspiradas nas redondas formas naturais. Como sabemos, a Natureza não gosta de linhas direitas. E o resultado é de uma grande leveza, parecem móbiles que vão levantar voo a qualquer momento, e perder-se nos céus como papagaios de papel ou bolas de sabão levadas pela luz.
A grande retrospectiva de Ruth Asawa é uma co-produção do San Francisco Museum of Modern Art (SFMOMA) e do Museum of Modern Art, Nova Iorque (MoMA), e uma consagração esperada do seu trabalho, esquecido como tantos outros feitos por mulheres. Além das escultura, também se vêem peças em argila e bronze, pinturas, desenhos, cadernos de esboços e gravuras, e dobragens em papel (origami). São cerca de 200 peças, de 1947 a 2006, distribuídas em dez secções, acompanhadas de imagens de arquivo. Esta que é a sua primeira retrospectiva internacional, foi um sucesso em São Francisco e depois de Bilbao seguirá para a Suiça, para a fundação Beyeler.
Faz 100 anos que Ruth Aiko Asawa nasceu, em 1926, em Norwalk, na Califórnia. A quarta de sete irmãos, filha de agricultores japoneses emigrados nos Estados Unidos, cresceu numa quinta. Janet Bishop do SF Moma, uma das curadoras, diz que a artista herdou dos pais uma grande ética de trabalho e toda a vida, “para ela, cada minuto em que estamos nesta terra é para fazer alguma coisa”. Também aprendeu com eles, ou não fossem budistas zen praticantes, a respeitar e admirar a Natureza.“ Conta à plateia de imprensa mundial, que voo para Bilbao, que o projeto artístico de Asawa foi prolífico e profundo, e com muito de experimental: uma folha, uma batata, um fio, um pedal de bicicleta, tudo era uma experiência de admiração e de espanto.”
Cara Manes, curadora-adjunta no MoMa de Nova Iorque recorda que a artista foi enviada para um campo de trabalho no Arkansas, ainda adolescente, pelo Governo dos Estados Unidos, no pós-guerra de Roosevelt: “Foi com os irmãos e separada dos pais, e foi nessa altura que começou a desenhar e resolveu tornar-se artista, depois desta experiência horrífica”. De certa forma, “a sua arte explorou noções de transparência, continuidade e espaço e tornou-a indomável”.
A primeira causa de Ruth Asawa foi a educação pelas artes, ainda hoje uma miragem. Candidatou-se, em 1946, a um curso de formação de professores, que lhe foi recusado pelo ódio anti-nipónico nascido de Pearl Harbour, e acabou por entrar na progressista e multidisciplinar Black Mountain College, na Carolina do Norte. Conheceu não só um ambiente democrático, além das aulas todos os alunos participavam nas tarefas (e Asawa estava na lavandaria, assim como cortava o seu próprio cabelo, por exemplo), e lá construiu um percurso criativo experimental, trabalhava com os materiais disponíveis, como as etiquetas dos lençóis. “Pegava em coisas vulgares para criar magia”, diz Manes. Foram os seus anos formativos, três ao todo, e neles conheceu artistas e professores como Josef Albers e o arquitecto Albert Lanier, que veio a ser o seu marido.
Em 1947, viajou para o México e, num mercado artesanal, encantou-se por um cesto em arame, em forma de galinha, para transportar ovos, e pelas técnicas tradicionais de tecelagem daquele país. Cruzou-os e assim nasceram as suas icónicas esculturas, agora suspensas nas salas do Guggenheim: “São feitas a partir de um fio de arame contínuo (...) encerrando volumes de forma transparente (...) e produzindo formas dentro de formas. (...) O fio tem de ser contínuo e as formas ocas só podem ser formas que crescem dessa maneira”, descreveu a própria. “A obra dita uma forma de crescimento, e quanto mais se aprende sobre esse modo de crescer, mais possibilidades se abrem para a criação de uma escultura (...)”
Em 1949 mudou-se para São Francisco e casou, quando foram revogadas as leis que proibiam o casamento inter-racial, o casal teve seis filhos. Escolheram esta cidade pela sua conhecida abertura e liberdade de costumes. As curadoras contam que ela dizia querer trabalhar com “qualquer coisa de mágico” e que o arquiteto lhe respondeu: “S.Francisco tem mais disso do que qualquer outra cidade no mundo.”
No início da década de 1950, Asawa trabalhou largamente ao seu motivo escultórico característico, feito com arame industrial e numa explícita ligação à natureza. Em 62, ofereceram-lhe uma planta seca do Vale da Morte que muito a impressionou e levou a sua escultura por novos caminhos, mais complexos e intrincados. Como a própria explicou, as suas obras “pegam num material impessoal, como o arame, que é muito duro, e transformam-no numa coisa suave, de aspeto natural; de modo que se pode pegar numa peça abstrata de arame e transformá - la numa planta. A mim agrada-me essa transição do duro para o suave”.
Ao mesmo tempo, “desafiou as ideias de abstração e representação, figura e fundo, e espaço negativo e positivo”, lemos no programa da exposição. As peças são permeáveis pela luz, mas não tanto pelo espaço que as envolve, antes pelo nosso olhar. Quando paramos para admirar as esculturas, elas ganham vidas diferentes de acordo com o ponto de vista, ondulam, sobrepõem-se, parecem dançar aos nossos olhos como os móbiles de criança. “Parecem cintilantes gotas de água”, acrescenta Cara Maines. “Desenham linhas e formas no espaço, puxando as possibilidades da escultura de forma radical, e dando espaço à porosidade e à transparência que as relacionam com o seu ambiente. Elas mudam conforme o nosso corpo se move.”
Nos anos 60, investigou diferentes disciplinas artísticas e tornou-se na professora reconhecida que sempre quis ser e estendeu o seu trabalho a uma intervenção direta na comunidade de São Francisco, através de encomendas públicas e educação artística. Em 68, teve um trabalho ativo de defesa do papel da arte na sociedade na San Francisco Arts Commission, no California Arts Council e no National Endowment for the Arts. Pensou várias esculturas para a cidade, “rostos da vida, dos amigos e colegas, corpos dentro de fontes”, descreve Janet Bishop. “Foi uma descoberta para os jovens, mas também para ela, pois não estava satisfeita com os currículos de arte nas escolas e trouxe artistas diferentes para as suas aulas”. A sua grande fonte de São Francisco, por exemplo, “foi um projecto de todos, de crianças a velhos, e começou a ser feita com materiais como os que usava para ocupar os seus filhos em dias de chuva.”
Também podem ser vistos muitos dos seus trabalhos em papel, litografias e desenhos. Para ela, desenhar a realidade tornou-se num valor inalienável, uma forma de se relacionar com o mundo, o presente e a passagem do tempo. “A vida desenha”, escreveu certa vez. Vemos muitas flores e vegetais do seu jardim, que o marido Albert plantava, várias versões dos lindos Albert's bouquet of flowers. Era atraída pelas plantas, todas, das que despontam, florescem, encantam, às pétalas caídas. Sempre desenhara a Natureza, mas tornou-se ainda mais evidente nos anos 80 e 90. Em 1985 foi-lhe diagnosticada lúpus, que lhe roubou energia, mas não o impulso de criar.
Cara Manes passeia connosco entre as obras e comenta como Asawa foi generosa nos desenhos, e como neles “há sempre coisas a descobrir, obrigam-nos a desacelear, a reparar nos vários pontos de interligação - a olhar como um acto criativo.” Ruth Asawa estudava a Natureza e “os seus padrões de crescimento.” Contemplação e crescimento, palavras que tanto ensinam. Ao almoço, a curadora diz-nos que, mais do que uma artista profissional, Ruth Asawa foi “um ser humano profissional”. Um dos seus netos, com quem nos cruzámos na exposição, disse-nos que parte da família viajou para Bilbao por todas as razões, mas também porque ajudou a reunir peças espalhadas por diferentes colecções, “estão algumas que estavam penduradas por cima das nossas cabeças, na sala, e nós nem reparávamos, porque vivemos com elas tanto tempo que se tornaram parte do ambiente”.
“A minha avó ligava muito à ideia de espaço positivo e negativo, foreground e background, mas a maioria de nós nunca conheceu a sua obra toda, ela não a expunha na sala, até porque estava mais focada na educação e na família do que na arte. Não teve muito sucesso comercial em vida, como tantos outros artistas.” Crescer numa família de artistas é uma benção, comentamos, o olhar para o mundo tem outra sensibilidade maior: “Toda a família ganhou imenso com esse olhar da minha avó. A sua exposição ganhou visibilidade e dei por mim na Casa Branca, com Joe Biden, a perguntar-me: 'porque raio estou aqui?'”, risos. “Deixa-me muito feliz ter crescido na casa onde cresci e onde ainda planto, como o meu avô fazia. Por isso, quando vejo estes desenhos vejo o amor com que cuidaram essas plantas e as trocaram entre si. E sinto-me a pessoa mais sortuda. Sim, o seu melhor legado para nós é a maneira como vemos o mundo e nos movemos nele, a maneira como ela nos ensinou a tratar as outras pessoas.”
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