Negócios do Luxo

Enquanto o luxo mundial estabiliza, Portugal atrai investidores em contraciclo

O Jornal de Negócios e a Máxima deram esta quinta-feira início à segunda edição do "Negócios do Luxo", reunindo no JNCQUOI Club, em Lisboa, representantes do imobiliário, da moda e da relojoaria e joalharia para discutir o posicionamento de Portugal no mercado do luxo.

2ª Edição Negócios do Luxo em Lisboa discute o posicionamento de Portugal
2ª Edição Negócios do Luxo em Lisboa discute o posicionamento de Portugal Foto: Rui Minderico
10 de julho de 2026 | Marina Oliveira Adicione como fonte preferencial no Google

O pequeno-almoço desta quinta-feira marcou o início da segunda edição de Negócios do Luxo, iniciativa conjunta do Jornal de Negócios e da Máxima, moderada por Diana Ramos, diretora do Jornal de Negócios. Com representantes do imobiliário, da moda e da relojoaria e joalharia à mesma mesa, o debate teve como tema "Portugal em contraciclo? Como o país se posiciona no novo mercado do luxo", uma pergunta que os organizadores dizem justificar-se pelo crescimento do setor do luxo em Portugal, ainda pouco acompanhado por espaços de encontro entre quem nele investe e opera. 

O mercado global de luxo deverá estabilizar em 2026. Segundo a Bain & Company, em parceria com a Altagamma, o mercado global de bens de luxo pessoal deverá crescer entre 2% e 4% este ano, depois de dois anos de crescimento quase nulo. A mesma consultora sublinha que a procura por experiências de luxo cresce 1,5 vezes mais rapidamente do que a procura por bens tangíveis, uma tendência que atravessou todo o debate. Em Portugal, o movimento é o inverso do global, chegam novos investidores, abrem marcas internacionais e muda o perfil de quem consome. Foi esse o diagnóstico do painel reunido para a segunda edição do Negócios do Luxo

Hugo Santos Ferreira, CEO da Corcoran Atlantic e presidente da APPII, identificou três vagas distintas de investimento estrangeiro em Portugal, a chinesa, entre 2015 e 2019, nos anos seguintes à crise financeira, a europeia, sobretudo francesa, atraída por regimes fiscais favoráveis, e a atual, dominada por americanos e brasileiros. A isso juntam-se, no primeiro semestre de 2026, investidores israelitas, libaneses, sauditas e do Qatar, a par de venezuelanos, todos a fugir de conflitos. "Quando chegam, ficam encantados e não querem sair", disse, sublinhando que a paz social e a ausência de risco religioso são hoje os principais fatores de atração de Portugal, ao contrário de destinos como Madrid ou Paris, que considera já expostos a esse risco. 

Maria Pimentel, fashion director da Fashion Clinic, explica a nova lógica de luxo da moda
Maria Pimentel, fashion director da Fashion Clinic, explica a nova lógica de luxo da moda Foto: Rui Minderico

A prova mais concreta desta nova vaga está na própria empresa de Hugo Santos Ferreira. A imobiliária norte-americana Corcoran entrou em Portugal em janeiro de 2026, com foco nos segmentos de topo em Lisboa, Estoril, Porto, Algarve e Madeira, região que descreve como uma surpresa positiva, sobretudo junto do cliente norte-americano. Em seis meses, a empresa já tem uma equipa de vinte a vinte e cinco pessoas e chegou perto dos 800 milhões de euros em pipeline de vendas, acima da meta inicial de 500 milhões. 

Na moda e no lifestyle, Maria Pimentel, fashion director da Fashion Clinic, ligada ao grupo por trás do conceito JNCQUOI, traçou uma mudança igualmente profunda. Para Maria Pimentel, esse conceito, que junta restauração e moda num só espaço, ajudou a criar em Portugal uma nova lógica de luxo assente em comunidade e pertença, e o setor já avançou além da experiência pontual. "Já não estamos a pensar as experiências isoladamente. Estamos a pensar a criação de mundos na sua totalidade e mundos aos quais os clientes querem pertencer", afirmou, usando um conceito que, disse, tem circulado nos fóruns internacionais de estratégia de marca, o "world building". 

O mercado global de luxo deverá estabilizar em 2026.
O mercado global de luxo deverá estabilizar em 2026. Foto: Rui Minderico

Na relojoaria e joalharia, David Kolinski, diretor de Desenvolvimento de Negócio da Tempus, empresa que detém a rede de lojas Boutique dos Relógios, assinalou uma viragem geracional mais rápida do que o esperado. "Temos uma fatia neste momento maioritária de clientes abaixo dos 35 anos", disse, explicando que o perfil dominante é o de jovens com carreira na tecnologia, atraídos precisamente pelo contraste entre o digital do seu quotidiano e o trabalho manual de um relógio de movimento mecânico. A aposta das marcas na herança e na revisitação de modelos icónicos, visível nas apresentações da Watches & Wonders deste ano, surge como resposta natural a esse apetite. 

O debate identificou três obstáculos principais ao crescimento do setor em Portugal. O aeroporto de Lisboa foi apontado por Hugo Santos Ferreira como um constrangimento crescente. A perda de competitividade fiscal face a países como Espanha, nomeadamente na ausência de um regime equivalente à lei Beckham e de um programa de Golden Visa reformulado, surgiu como o segundo ponto crítico. A escassez de recursos humanos qualificados foi o terceiro. "Temos pouquíssima formação nos serviços", disse Maria Pimentel, defendendo um investimento nacional na área, que não se limite ao esforço isolado de cada empresa. David Kolinski acrescentou uma dimensão concreta a este último ponto, com cada vez mais grupos internacionais a abrir lojas na Avenida da Liberdade, a concorrência pelos mesmos profissionais qualificados tem disparado, elevando a rotação de pessoal num setor onde a formação continua escassa. 

A iniciativa Negócios do Luxo prossegue com uma Grande Conferência, etapa final do projeto, com data e local ainda por definir. 

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