Conversas

Tom Ford: “Sou um vampiro que se alimenta de vaidade”

Ele reinventou a Gucci, construiu a sua própria marca multimilionária, realizou filmes aclamados pela crítica e, depois, dedicou-se à indústria da beleza. Primeiro, criou maquilhagem para homens e está a lançar uma linha de cuidados dermatológicos “bigénero”. Haverá algo que Tom Ford não consiga fazer? Fomos conversar com o rei do glamour.

Tom Ford nos CFDA Fashion Awards em Junho de 2019
Tom Ford nos CFDA Fashion Awards em Junho de 2019 Foto: Getty Images
09 de dezembro de 2019 | Ben Hoyle

Por azar, Tom Ford acaba de me apanhar a olhar para o seu peito. Um lampejo de confusão e de sobressalto atravessa o rosto do designer de moda, antes de a sua expressão se tornar maliciosamente divertida. Ele desvia-se da conversa sobre a linha de cuidados dermatológicos unissexo que deveríamos estar a ter. "Os seus olhos estão a divagar", diz Ford. "Para onde está a olhar?" Eu só estava a tentar ver, sinceramente, o que ele tem vestido porque eu achei que os leitores poderiam querer saber. Ford é bastante famoso pelas suas roupas. Na década de 1990 ele salvou a Gucci de cair no esquecimento do estilo com uma estética altiva e sexualizada que ajudou a impulsionar a moda para o mainstream do entretenimento. Em seguida, após um desentendimento tumultuoso com os donos da marca, Ford saiu e criou uma marca com o seu próprio nome, por vezes servindo-lhe de modelo. Das poucas pessoas do planeta mais reconhecidas pela sua imagem do que Ford, uma enorme proporção (Beyoncé, Rihanna, Lady Gaga, Madonna, David Beckham, Daniel Craig no papel de James Bond) usa peças feitas por ele. Agora as suas sobrancelhas começam a arquear de forma teatral. Ford começa a fingir que está zangado. "Você está a distrair-me!", rosna. "Está a olhar para o meu lenço ou para a minha barriga!" Ele dá-se pancadinhas freneticamente, como um cowboy num western de má qualidade à procura de um ferimento de bala. "Eu estou para aqui a pensar: ‘Será que tenho a barriga saliente?’" (É claro que não e eu tenho a certeza de que ele sabe isso.) Para efeitos oficiais, Ford veste um fato preto, um lenço com manchas pretas e brancas e uma camisa desabotoada. Ok, fiquei temporariamente distraído com quão aberta a sua camisa estava. O look é um clássico de Ford, um aceno de estilo à sua adorada época disco dos anos 70 – e que ele parece não pretender abandonar, mesmo aos 58 anos. Outras celebridades e magnatas pareceriam pirosos, desmazelados ou desesperados por atenção ao mostrarem assim tanto o peito, mas o visual assenta bem a Ford. Porquê? Em busca de pistas, eu tentei contar quantos botões estavam desabotoados quando ele me viu. De certa forma, sinto que seria excessivo contar isto tudo a Ford. Em vez disso, peço-lhe, hesitante, que antes de prosseguirmos ele me diga o que tem vestido porque me esqueço sempre de perguntar. "O que tenho vestido?", murmura uma das figuras mais influentes da história da moda com um tom levemente incrédulo. "Um fato Tom Ford, uma camisa Tom Ford, um lenço Tom Ford, sapatos Tom Ford, óculos Tom Ford, um relógio Tom Ford e botões de punho Tom Ford." As cuecas também são Tom Ford? Bem, provavelmente não. Ford já disse, muitas vezes ao longo dos anos, que nunca usa roupa interior. Tendo em conta as circunstâncias, decido não lhe pedir pormenores. Felizmente, Tom Ford está cheio de vontade de conversar. "Se eu quiser alguma coisa que não fabrico, desenho-a", diz, com uma linguagem corporal animada e pausas dramáticas. "Por isso, se eu quiser umas botas de motoqueiro e não tiver nenhumas feitas por mim, desenho-as." Que postura extraordinária. Costuma vestir coisas que não sejam feitas por si? "Não, porque se eu tiver de usar uma coisa de outra pessoa, isso significa que me falta um produto." As únicas exceções são "coisas técnicas, como um sapato especializado para jogar ténis. Eu faço sapatilhas. Toda a gente está a fazer sapatilhas giríssimas agora, mas não são necessariamente sapatos técnicos. Eu jogo num campo de terra batida, por isso preciso de sapatos de ténis para terra batida, com as solas adequadas." Pausa. "Ok", diz ele. "Podemos passar aos cuidados dermatológicos?" Nunca existiu uma figura cultural como Thomas Carlyle Ford.

Tom Ford nas gravações de
Tom Ford nas gravações de "Animais Noturnos" (2016) Foto: IMDb

uma década, enquanto conquistava o mundo da moda pela segunda vez, Ford também se arriscou a ser humilhado – e a perder imenso dinheiro – por se autofinanciar, coescrevendo e realizando uma longa-metragem de 7 milhões de dólares. Um Homem Singular foi adaptado a partir de um romance de Christopher Isherwood sobre um professor de inglês discreto e gay que luta com o desgosto na Los Angeles da década de 1960. O filme, de 2009, tornou-se um sucesso crítico e comercial, foi nomeado para um Óscar graças ao desempenho de Colin Firth no papel principal, e cimentou a credibilidade de Ford como uma voz singular no cinema de autor, rendendo quase 25 milhões de dólares nas bilheteiras. O seu segundo [e mais recente filme], Animais Noturnos, foi nomeado para os Globos de Ouro nas categorias de realização e de argumento e ficou em segundo lugar no Festival de Cinema de Veneza, em 2016. Era um filme sobre a morte, um tema que Ford diz ocupar a sua mente a cada hora do dia. Por essa altura, Ford dera outro salto. Em 2013 lançara uma linha de maquilhagem para homens, algo que pareceu vanguardista, então, mas que parece presciente agora. Vivemos numa época em que o presidente de França gasta 26 mil euros em maquilhagem a cada três meses (Emmanuel Macron, em 2017), em que um ator de cinema famoso reconhece, com orgulho, que usa base para ir à cerimónia dos Óscares (o britânico Daniel Kaluuya, em 2018) e em que a zona central de Birmingham, o ponto quente do diletantismo, para subitamente porque um influencer de maquilhagem, de 19 anos, está na cidade (o trânsito ficou engarrafado durante horas porque oito mil pessoas apareceram para ver o youtuber James Charles no centro comercial Bullring, em janeiro). Para efeitos de investigação, eu fui recentemente jantar fora, arranjado com o concealer e o gel bronzeador de Ford: reduziram o brilho e aqueceram subtilmente o meu tom de pele, fazendo com que eu ficasse com melhor aspeto nas fotografias, mas, de resto, a maquilhagem era quase completamente impercetível. Pelo menos, era o que eu pensava enquanto olhava para o meu sobrinho, de 15 anos, que também pôs a maquilhagem sem hesitar um segundo. Depois do jantar, a minha mulher inclinou-se na minha direção e disse-me que eu tinha "uma marca de bronzeado" na bochecha por ter espalhado mal o bronzeador. "Cometeste um erro de amador", disse-me. "Pareces uma rapariga adolescente. Mas fez maravilhas aos papos em baixo dos teus olhos."

O sucesso de Ford na área da maquilhagem masculina contribuiu para inspirar outras marcas – incluindo a Chanel que lançou a sua linha Boy de Chanel no ano passado – ao ponto de a empresa de sondagens de mercado Euromonitor prever que os mercados masculinos de cuidados pessoais e de beleza valerão mais de 60 mil milhões de dólares até 2020, quase o quádruplo dos valores de 2015.

Agora Tom Ford está pronto para desvendar outra derivação conceptual: a chegada da Tom Ford Research. A informação de marketing anuncia-a como "a incubadora e centro de investigação pessoal de Tom Ford na vanguarda da ciência avançada". Contudo, ele não vai juntar-se a Jeff Bezos, a Elon Musk ou a Sir Richard Branson na nova corrida espacial. O ousado Ford quer ir onde nenhum empresário da indústria da beleza de luxo foi antes e desenvolver uma gama de cuidados dermatológicos "que faça mesmo qualquer coisa", nas suas palavras. Ele convenceu a [companhia] Estée Lauder (proprietária da Tom Ford Beauty) a financiar uma investigação sobre os segredos da juventude dermatológica duradoura. Uma equipa de cientistas esteve reunida num laboratório, nos arredores de Nova Iorque, durante três anos e agora Ford tem algo para nos apresentar.

A grande revelação ocorre num estúdio fotográfico, em Los Angeles. Há guarda-costas com fatos pretos e óculos de sol na entrada. Lá dentro há jornalistas de moda ansiosos, vestidos para impressionar, que voaram propositadamente até ao local. Eu não sou jornalista de moda, muito menos editor de beleza. Por isso é um pouco inquietante ser informado, mesmo antes do início da entrevista, que esta vai ser somente sobre cuidados dermatológicos – e nada mais. Ford aguarda numa sala pequena e de pé-direito alto, acompanhado pela sua diretora de marketing. "Ah, um aperto de mão firme. Você deveria ser massagista", diz Ford, imediatamente, com o tom forte de um cavalheiro dos estados do sul [dos EUA]. Ele é simpático, inquisitivo e sabe desvalorizar-se taticamente. Onde é que eu vivi antes de LA, pergunta-me. Eu era o correspondente do The Times, em Moscovo. "Então você é um jornalista a sério e estamos aqui a falar sobre cuidados dermatológicos?" Sentamo-nos em frente um do outro, com uma mesa baixa entre ambos, sobre a qual se encontram os dois produtos da Tom Ford Research: um pequeno tubo de creme hidratante e um frasco esguio de sérum; juntos custam 660 libras [746 euros].

Ford tem o cabelo curto e escuro, uma barba por fazer perfeita e uma pele sobrenaturalmente intemporal, graças aos seus novos produtos e à combinação daquele bronzeador e concealer, um uso criterioso de botox e um cuidado fanático com a iluminação. (No bar do hotel Sunset Tower, em West Hollywood, foi instalado um interruptor para desligar o foco do teto que incidia sobre a sua mesa habitual porque ele disse ao dono que deixaria de frequentar o local caso não o fizessem.) Menos de um minuto depois, estamos naquela cena dramática sobre eu estar a distraí-lo e a sua barriga não estar saliente. É uma cena penosa, mas também esclarecedora. Eu tenho o hábito de tomar alguns apontamentos sobre a aparência de um entrevistado, no início das entrevistas. Ninguém parecera reparar nisso antes de Ford. Mas devemos ter em conta que ele é um control freak assumido (embora ele deteste a expressão) que já reconheceu estar constantemente a processar cada pormenor de todos os objetos e pessoas que surgem no seu campo de visão. Posso confirmar que ele é mesmo tão hipervigilante como diz.

Começamos a falar sobre cuidados dermatológicos. "Tenho apontamentos porque é um tema bastante complexo, mas, na verdade, já não preciso deles", diz Ford, voltando a pôr os óculos que tirou quando nos sentámos. Ele não acredita em cremes e noutros produtos disponíveis em grandes superfícies. Os tratamentos de laser e de botox, e os cremes com altas concentrações de vitamina C e de retinol vendidos pelos dermatologistas são melhores, mas não devem ser usados em excesso. Por isso, havia uma lacuna no mercado, que ele tentou preencher com saquetas de chá. Há anos que Ford mergulha saquetas de chá em água para, em seguida, aplicá-las nos seus olhos inchados. "Reparei que a cafeína é diurética e, por isso, chupa a água e desincha os olhos. Mas também reparei que parecia hidratar a pele e disse isso aos investigadores." Efetivamente, a cafeína "energiza a pele da mesma forma que energiza o corpo. É um estimulante". Acelerando a renovação celular, resulta numa pele "mais luminosa, com menos manchas de envelhecimento, menos sardas e menos danos provocados pelo sol". A equipa de investigação concluiu que a combinação de tipos de cafeína mais eficaz para revigorar a pele incluía o raro cacau branco, uma cafeína sintetizada pura e um extrato de chá verde japonês chamado gyokuro. Ford pronuncia "gai-o-cu-rro" e faz uma pausa, como se estivesse à espera de aplausos. "Estive a treinar isto", diz secamente. Este trio de cafeínas anti-inchaço foi complementado com ácido láctico, ácido glicólico, antioxidantes de vitamina C, vitamina B e ácido hialurónico no creme que "atrai humidade" e peptídeos no creme e no sérum que "preenchem tudo e minimizam a aparência dos poros, tornando a pele mais polpuda", e um extrato de algas "que tem um efeito calmante". Ford faz uma pausa, reparando corretamente que eu perdi completamente o fio à meada. "Já chega para si, não é? Tem a cabeça a andar à roda com estes químicos todos?" Felizmente eu tenho tudo gravado no meu Dictaphone. Além disso, os cinco volumosos relatórios de investigação que estão à nossa frente contêm pormenores sobre o trabalho realizado, que incluiu testar 74 outras fórmulas antes de escolherem a que veio a ser comercializada.

Campanha dos cuidados dermatológicos para homens Tom Ford Beauty
Campanha dos cuidados dermatológicos para homens Tom Ford Beauty Foto: Instagram @tomfordbeauty

Se toda esta ciência tornou a experiência de trabalho muito diferente das suas experiências passadas? Ford responde com um sorriso satisfeito: "Bem, eu sempre me interessei muito pela vaidade e por tudo o que me desse melhor aspeto e me fizesse sentir que tinha melhor aspeto. Sou um vampiro que se alimenta de vaidade. É isso que eu vendo. Eu ajudo as pessoas a terem melhor aspeto, a sentirem-se melhor e mais confiantes." Ford faz uma pausa. "Estou a ser superficial e como você é do The Times é isso que vai usar. Ela disse (gesticula na direção da sua diretora de marketing): ‘É o Ben, do The Times.’ E eu disse: ‘Ah, um inglês. Fantástico…’" Ford viveu 17 anos em Londres antes de se mudar, definitivamente, para a Costa Ocidental, há pouco tempo. Se tem saudades? "De Inglaterra. Muitas. Eu sinto falta da irreverência. Sinto-lhe desesperadamente a falta. Estou a viver aqui por motivos pessoais, se não ainda estaria em Londres." Eu considero que isto é uma alusão ao estado de saúde precário do seu marido, o jornalista de moda Richard Buckley, de 71 anos, que teve cancro da garganta, em 1989, e que voltou a adoecer gravemente, há pouco tempo. Ford apaixonou-se por Buckley numa viagem de elevador, em 1986. Foram viver juntos passado um mês e nunca mais se separaram. A Londres que eles frequentaram era um sítio "educado, onde se vestia casaco e sapatos a sério e era preciso usar gravata para ir a determinados restaurantes e clubes noturnos", mas Ford acha que a mudança para a Califórnia foi benéfica para o seu trabalho.

"Eu ter de me adaptar a um estilo de vida mais informal tornou o meu trabalho mais relevante porque há mais pessoas a viverem e a vestirem-se como os californianos do que na pequena ‘bolha’ londrina." Talvez apenas em Los Angeles seja possível alguém mudar-se para uma mansão histórica de 39 milhões de dólares e dizer que se voltou a ligar às massas, mas compreendo o que ele está a dizer. Ford não comenta se LA é ou não o centro de estilo mais importante do mundo, mas sugere que LA e Londres são os dois sítios principais "devido às produções cinematográficas, televisivas e musicais de LA e Londres", juntamente com muito investimento na imagem da parte das redes sociais e dos paparazzi. "O mundo está cada vez mais a viver a moda, as tendências e a beleza através do Instagram e através de uma lente muito focada no entretenimento. Se quiser chamar a atenção para algo desenhado por si, basta dá-lo a uma celebridade." Isso é mais difícil de fazer com um produto de cuidados dermatológicos, daí a ênfase na ciência, diz Ford.

Quão diferente é este dos seus trabalhos anteriores em cosmética e cuidados dermatológicos? Ford sorri, compassivamente. "É um salto gigante porque os cuidados dermatológicos são diferentes da cosmética." Sim, claro, isso eu já sabia. Ele prossegue: "Os cuidados dermatológicos são como tratar da tela e a cosmética é, de certo modo, a tinta. É melhor começarmos com a melhor tela possível porque assim vamos precisar de menos tinta."

Tom Ford no desfile primavera-verão 2004 da Gucci em Milão
Tom Ford no desfile primavera-verão 2004 da Gucci em Milão Foto: Getty Images

É um salto tão grande como, fazendo uma comparação aleatória, passar da moda para um filme? Ele sorri, maliciosamente. "Bem, em primeiro lugar, passar da moda para um filme não me pareceu um salto. São coisas que sempre me apaixonaram. Por isso sentia-me muito confiante quanto a fazer um filme… Parecia-me algo muito natural. Depois de fazer o meu primeiro filme, alguém me disse: ‘Como te sentiste por teres toda a gente a rir-se de ti?’ Eu não fazia ideia." Se pareceu um grande salto aos outros? "Ter um filho foi um grande salto." Em setembro de 2012, Ford e Buckley tiveram um filho: Alexander John Buckley Ford (conhecido como Jack) nasceu graças a uma barriga de aluguer. Ford estava em Londres a organizar uma festa de angariação de fundos para a campanha de reeleição do presidente com a diretora da Vogue americana, Anna Wintour, quando recebeu o telefonema. Ele e Buckley embarcaram num avião para os EUA mesmo a tempo de verem Jack nascer. "Você tem filhos?", pergunta-me Ford. Sim, tenho. "Antes de os termos fazemos uma ideia de como vai ser, mas não sabemos. Não conseguimos descrever como é a alguém que não tenha filhos." A sensibilidade estética de Ford é tão grande que ele mandou pintar de preto os tratores amarelos da sua gigantesca propriedade no estado do Novo México para condizerem com os cavalos e as vacas. Ele afirmou, em tempos, que o seu perfecionismo é "quase uma doença mental". Imagino que pôr uma criança de seis anos naquele ambiente meticuloso seja, para ele, como detonar granadas 24 horas por dia. Ford faz um aceno afirmativo com a cabeça: "Mas ele adora horários. ‘O que vamos fazer daqui a três horas? E amanhã às seis horas, o que vamos fazer e a que horas é que eles chegam?’ É muito interessante. Ou ele apanhou isto de mim geneticamente ou foi pelo convívio. Ele sabe que ‘não se toca na arte’. Pareço maluco a falar desta maneira. O quarto dele é uma confusão. É assustador. Enfim, é uma criança."

Ter um filho tornou Ford "muito mais descontraído", nas suas palavras. Talvez seja mais acertado dizer que ele encontrou uma nova fonte de ansiedade. "Antes de termos o Jack, um amigo disse-me: ‘Nunca mais vais dormir bem.’ E é verdade." (Por outro lado, ele também disse que ter um filho significa "abdicar do direito ao suicídio".) "Que idade têm os seus?", pergunta-me. Dez e doze, respondo. "Rapazes ou raparigas?" Duas raparigas.

"Ohhhhhh!", diz ele, com um olhar de pura compaixão. LA, acha ele, é um sítio difícil para as raparigas. "Parece uma loucura vindo de mim, mas a ênfase na beleza física…" Eu deveria perguntar-lhe o que planeia fazer em relação a isso, mas eu acabo por explicar que vivemos, propositadamente, numa zona encantadora, mas entediante de LA, com imensas famílias que partilham uma noção de comunidade, onde eu me sinto um pouco mais seguro de que as raparigas poderão ser crianças durante mais tempo. "Sabe", diz Ford com um tom melancólico e pesaroso, "eu cresci numa cidade pequena e andávamos todos a fazer sexo e a consumir drogas quando éramos muito novos porque não havia mais nada para fazer". Ele irrompe numa gargalhada e depois assume uma expressão surpreendentemente preocupada. "Estou a brincar. Estou a torturá-lo. Não queria insinuar que as suas filhas vão fazer sexo e consumir drogas."

Ford nasceu em Austin, no Texas, e cresceu entre ali e Santa Fé, no Novo México. Os seus pais eram agentes imobiliários abastados e o jovem Ford cresceu com grandes ambições e tão fixado na imagem que punha um par de sapatos novos na mesa de cabeceira antes de dormir. "Se me tivesse perguntado quando eu tinha cinco anos o que eu queria ser quando fosse grande, eu teria dito estrela de cinema. Não ator, mas estrela de cinema." Ele acha que pensou assim até ter "provavelmente uns 21 anos". Aos 17 anos, Ford mudou-se para a Costa Leste, para frequentar a New York University. Certa noite, no seu primeiro ano, um colega levou-o a uma festa, onde ele conheceu Andy Warhol, que levou o grupo ao Studio 54. Ford bebeu muito, snifou muita cocaína e esteve com um homem pela primeira vez na vida. Desistiu da NYU, fez alguns trabalhos como ator (sobretudo anúncios) e depois estudou arquitetura na Parsons School of Design, em Greenwich Village, e em Paris. Licenciou-se em 1986 e entrou para a Gucci, em 1990. Quatro anos mais tarde tornou-se o diretor criativo da marca e propulsionou-se para a estratosfera da moda com a sua primeira coleção. Naqueles tempos, as marcas históricas moribundas costumavam ser abandonadas à morte. Ford mudou isso. Ele transformou uma empresa quase falida numa empresa com um volume de negócios de quase 3 mil milhões de dólares. Nos últimos quatro anos do seu mandato também desenhou para a Yves Saint Laurent, após esta ser adquirida pelo Gucci Group. Nem todos ficaram satisfeitos com a passagem do testemunho. O próprio [Yves] Saint Laurent [que vendera a marca que havia fundado com Pierre Bergé] lamentou-se amargamente: "O coitado faz o que pode." Depois disso, Ford passou a dizer que o falecido designer francês era "diabólico". Em 2004, depois de uma luta de poder com o conglomerado de luxo Pinault-Printemps-Redoute, o principal acionista do Gucci Group, Ford e o diretor executivo do grupo, Domenico De Sole, demitiram-se. Ford foi deitar-se às 16 horas nesse dia, "superdeprimido", e teve "pesadelos simplesmente horríveis", contou-me, porque "a minha vida na Gucci era como ser casado, ter dois filhos e viver numa casa construída por nós. Um dia chegamos a casa, a porta está trancada e a nossa mulher está lá dentro a f**** com outro". Começou a jogar mais ténis. Comprou tacos de golfe e só os usou uma vez. Por fim, nas suas sessões de psicanálise, percebeu que precisava de voltar a criar. Foi assim que nasceu a marca Tom Ford e a sua carreira em Hollywood. De Sole tornou-se o presidente do conselho de administração da Tom Ford International. Começaram com óculos topo de gama e uma pequena linha de produtos de beleza, antes de se expandirem para o tipo de roupa masculina e feminina em que cada peça custa tanto como umas férias em família. Agora tem lojas em quase todo o mundo e, no início deste ano, foi nomeado presidente do Council of Fashion Designers of America, sucedendo a Diane von Furstenberg que o descreveu como "uma combinação de Rolls-Royce com o Marlboro Man". De volta a Jack. Tendo dito o que disse sobre crescer em Los Angeles, acha que vai ficar por cá? "Vamos esperar para ver. [Com] um filho pequeno, eu acho que é ótimo porque ele pode correr cá fora e nadar, brincar e jogar ténis. Quando a adolescência se aproximar… não sei." Ford disse, em tempos, que a sua mãe ficou "admirada por eu me ter revelado uma boa pessoa, com um bom coração" porque "quando eu era pequeno, ela achava sempre que eu era terrível e não tinha sentimentos e era egoísta e mimado porque eu estava muito obcecado com coisas materiais e com coisas que não eram espirituais". E comenta: "Para mim, a aparência das pessoas era, frequentemente, mais importante do que a sua maneira de ser. Mas ela sabia mais do que eu. Só mais tarde é que me apercebi de que ela tinha razão." Hoje em dia, ele dá a entender que ela tinha medo "que eu não estivesse a desenvolver uma parte minha que tivesse conteúdo". E ele acha que tinha conteúdo, apesar de ela não o ver? "Continuo a achar que não tenho. E acho que é isso que motiva as pessoas: aquela sensação de não termos feito o suficiente, de não sermos suficientemente bons, de não sermos suficientemente perfeitos." Ford detém-se. "Isto está a ficar muito parecido com uma sessão de terapia", comenta. Sinto-me intrigado, digo-lhe, porque muitas pessoas bem-sucedidas dedicam-se apenas àquilo em que são boas e tentam ser cada vez melhores nisso. É preciso um tipo diferente de apetite pelo risco e talvez um tipo diferente de insegurança para dar os saltos que ele deu. "Mas sabe o que também está por detrás de tudo isto? Por vezes as pessoas perguntam: ‘E as vantagens do dinheiro?’ O dinheiro dá liberdade. Eu não poderia ter feito um filme se não pudesse dar-me ao luxo de o financiar. Tenho imensa sorte. Mas os meus produtos de cosmética e de perfumaria são suficientemente bem-sucedidos para… Sabe, a [companhia] Estée Lauder achou que valia a pena dar-me a oportunidade de fazer isto. A reputação que ganhei na Gucci e na Saint Laurent deram-me a oportunidade de assinar contratos para criar um perfume, produtos de cosmética e óculos antes disto."

Tom Ford no desfile primavera-verão 2003 da Yves Saint Laurent em Paris
Tom Ford no desfile primavera-verão 2003 da Yves Saint Laurent em Paris Foto: Getty Images

Disse que é mais descontraído agora – talvez também seja mais feliz? "Sou mesmo mais feliz." Tem medo de que isso lhe tire a motivação? "Quando deixei de beber eu tive medo de perder alguma coisa [útil]." Ford deixou de beber e de consumir drogas há 10 anos. Continuou a fumar durante mais algum tempo, mas quando Jack nasceu já largara o tabaco. "Quando bebemos, temos menos filtros e eu criei uma carreira a fazer coisas com base no facto de ter poucos filtros, sabe?" Ele refere o seu famoso anúncio da Gucci, em 2003. A modelo Carmen Kass foi fotografada com um "G" desenhado com os seus pelos púbicos expostos e um homem completamente vestido ajoelhado à sua frente. Beber, diz Ford, "dava-me liberdade". E confidencia: "Eu sou um pouco tímido e contido por natureza, mas agora não sinto necessidade de me lembrar de como era essa pessoa e não me sinto contido." Antes de vir para aqui, pedi à antiga diretora de uma revista que conhece Ford para me dizer sobre que temas deveria conversar com ele. Ela disse-lhe que sexo e arte eram dois bons quebra-gelos porque "ele sabe imenso sobre ambas as coisas".

"Não vamos falar sobre sexo", declara Ford. Arte, então. "Há artistas e há designers comerciais que são artísticos e eu sou um designer comercial que é artístico. O Alexander McQueen era um artista que se exprimia através das roupas. Talvez eu também o faça. Talvez esteja a exprimir uma coisa diferente. Mas tenho uma inclinação naturalmente mais comercial." Os resultados comerciais são uma das razões que o motivam a chocar menos, agora: seria incompatível com este momento "politicamente correto". Se ele faria, agora, aquele anúncio de 2003? "Não! Nem pensar!", declara. Tudo o que lhe pareça exploração está fora dos limites. "Temos de ser muito mais cuidadosos." Pergunto a Ford o que o seu sérum e o seu creme poderiam fazer por mim. Ele observa-me mais de perto.

"Sabe, você não tem muitas manchas de envelhecimento ou danos provocados pelo sol." Isso é porque sou inglês e não temos muito sol. E os papos em baixo dos meus olhos? "Para isso vai precisar de um preenchimento feito por um dermatologista e depois terá de tomar a decisão estilística de combater ou não essas rugas mais profundas que tem no rosto." Ford é um lutador. Ele combate essas linhas. Com o seu creme e o seu sérum. Com o laser do dermatologista e uma utilização "muito criteriosa" e ligeira de botox.

"É uma questão de sermos o melhor da turma. Não devemos ambicionar parecer ter 20 anos. Quantos anos tem você?" Quarenta e três. "Então deve tentar parecer a melhor versão de si próprio com 43 anos." Vou esforçar-me mais. Os novos produtos pretendem ser unissexo ou "bigénero" porque "é uma questão cultural", diz Ford. Os homens estão tão interessados na sua aparência como as mulheres, afirma. "Os metrossexuais – os meus clientes – que tratam do corpo e são maioritariamente urbanos querem que a sua pele esteja ótima." Isto é um avanço, na sua opinião. Ele cruza uma perna por cima da outra. "Quando eu era pequeno, os homens nunca cruzavam as pernas assim. As mulheres é que cruzavam as pernas assim. Os homens cruzavam as pernas desta maneira (faz a posição de pernas afastadas com um pé em cima do joelho oposto). No Texas, não devíamos cheirar demasiado bem porque isso era considerado feminino." Ford é famoso por cheirar otimamente e os seus clientes podem cheirar igualmente bem. O amigo solteiro de um amigo meu gastou 3 mil dólares em velas Tom Ford para o seu apartamento para aumentar o seu nível de sedução – e, aparentemente, conseguiu. Ele prossegue: "Havia regras muito rígidas, sabe? Os homens não choram, os homens não usam cor-de-rosa. Estas regras têm desaparecido gradualmente ao longo dos anos." Então você tinha medo dessas regras? "Eu estava muito ciente delas, sim. E quando estava a tentar não parecer que era gay, apesar de, lá no fundo, saber que era, assegurava-me sempre de que cruzava as pernas daquela maneira (a maneira masculina)." O público-alvo dos seus produtos de cuidados dermatológicos é qualquer pessoa entre os 25 e os 75 anos, diz. E o preço? 660 libras [745 euros) pelo pacote completo é um pouco excessivo para algumas pessoas. Vai haver uma versão mais barata? "Não." Depois da entrevista, eu comecei a aplicar diligentemente o sérum e o creme duas vezes por dia. Talvez seja psicológico, mas começo a pensar se a minha pele parecerá um pouco mais luminosa e esticada. Talvez as rugas das minhas bochechas e da testa estejam a diminuir ligeiramente. É difícil ter a certeza porque não costumo vê-las tão de perto. Uma noite, após cerca de uma semana, a minha mulher – que também tem estado a experimentar os produtos e também não consegue acreditar no seu preço – sai, radiosa, da casa de banho.

"É muito irritante", diz-me, "mas acho que isto é mesmo capaz de funcionar."

 

 

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