Nigéria meets Texas: as peças de Dozie Kanu para a Knoll
Uma viagem pelas origens do artista que gosta de brincar entre a escultura, a instalação e o design industrial. Vive em Santarém, mas a Must falou com ele em Lisboa, onde as pode encontrar.
Está sentado num banco corrido no piso térreo do grande espaço da Quarto Sala, na Rua do Século, em Lisboa. Uma das lojas de refrência ba capital onde se compra design de sonho, dos grande nomes às marcas icónicas. Enche-se de trausentes e curiosos que batiam as capelinhas da Design Week, a primavera a brilhar no seu pleno.
As peças de Donie Kanu para a Knoll são o centro das atenções: uma coffee table, uma consola e uma mesa de apoio, uma experiência onírica feita de ondulantes franjas em pele animal, que nos levam do universo tribal africano aos casaços de camurça dos cowboys do Texas. As suas peças não encaixam em padrões clássicos e seguem a escola surrealista onde forma e função se separam e juntam para gáudio da arte e da sua mensagem social. Querem ser objetos vividos. “A escultura torna-se um lugar onde a estética e a funcionalidade permanecem em tensão, sem nunca convergir numa forma estável”, diz.
Kanu nasceu em 1993, em Houston, no Texas, filho de pais vindos da Nigéria para os Estados Unidos. Começou por estudar direção de arte para Cinema na School of Visual Arts, de Nova Iorque, onde aprendeu a olhar para “a encenação, a narrativa e a dimensão espacial das formas”, lemos na sua biografia. Trabalhou num estúdio de design de interiores em Chelsea e foi aí que aprendeu noções de espaço e uso, e começou a experimentar uma espécie de esculturas feitas com pedaços de mobiliário, de decoração e arquitectura, peças de automóveis e metais, e muitos objects trouvé. Kanu vive e trabalha em Portugal, em Santarém, para onde se mudou com uma namorada, e ficou depois do romance terminar, conta-nos
Já apresentou o seu trabalho em instituições e galerias como o Studio Museum, Fondation Beyeler, LUMA Arles, Lumiar Cité, Neuer Essener Kunstverein, Performance Space New York, Kölnischer Kunstverein, Galerie Francesca Pia e na Galleria Federico Vavassori, em Milão. Em 2026, apresentou uma ampla exposição institucional no ICA Milano, em colaboração com a Fundação Nicoletta Fiorucci. Por seu lado, a Knoll é uma empresa norte-americana que fabrica sistemas de escritório e de arrumação, mobiliário, têxteis e acessórios, mas tem uma divisão, a Knoll Studio, que fabrica peças pensadas por arquitetos e designers de renome. É deste encontro que aqui se fala.
Apesar de ser nascido já nos Estados Unidos, é natural que a sua cultura nigeriana esteja sempre consigo, é evidente no seu trabalho.
É o lado interessante de crescer num lar nigeriano onde os objectos contêm uma certa espiritualidade, porque estão ligados a qualquer coisa de sagrado. Sempre fez parte da forma como eu, de certa forma, penso sobre o funcionamento dos objetos. Quando pensamos nos objetos africanos, nas taças, nas máscaras, nas cabeças, na cultura dos meus ancestrais, todas tinham um papel espiritual. Mas depois vieram para o mundo ocidental e foram consideradas esculturas, feitas apenas para ser olhadas ou admiradas esteticamente. Por isso, penso que, de muitas formas, a minha prática artística procura, ou muitas das camadas do que eu faço pretendem trazer essa espiritualidade ao objecto funcional, o que faz parte do nosso dia-a-dia. Como é que eu posso elevá-los de forma a que comuniquem para além da sua função? É assim que tenho abordado a minha prática artística.
Mas essa vontade transcende a sua herança cultural, tem um propósito maior?
Sim, faz-me sentir que estou a fazer qualquer coisa com sentido. Vivemos numa sociedade de capitalismo tardio. As coisas estão tão vazias, parece que a única coisa que importa, as únicas coisas que interessam são para fazer dinheiro, pode ser bastante desanimador e sem alma. Li um livro recentemente chamado Atlas do Coração [Atlas of the Heart, Mapping Meaningful Connection and the Language of Human Experience de Brené Brown, Ebury Publishing, novembro 2021] e uma das emoções que eu descobri que mais me atrai é a ideia de ficar boquiaberto, maravilhado. Quando qualquer coisa te cala, absorvido pelo teu desejo de compreender. Achas que é lindo, mas não tens palavras para descrevê-lo ou explicar o quão belo é. E esta sensação não tem preço, para mim. Eu, de certa forma, tenho uma certa vontade de conseguir recriar essa sensação porque falta em muitas vidas, hoje em dia.
Nem nos deixamos ter tempo para admirar sequer...
Sim, para nos deixar cativar... pela criação. Eu penso que o mundo da arte dá-nos muito mais espaço para que esta emoção entre. Chegas a uma exposição, chegas a uma mostra como esta, onde tudo o que vês à tua volta é bonito e está a ser-te vendido, é diferente de contar-te qualquer coisa; se quer ou não dizer-te alguma coisa, entendes? Felizmente as minhas peças querem, por isso...(riso)
O lugar do design também é trazer essa arte para a vida de todos os dias. Como é que separa o artista do designer?
Eu diria que uso a função do objecto mais como uma ferramenta conceptual. Um mecanismo de atracção para chamar as pessoas que talvez não tenham as ferramentas para perceber a arte conceptual, mas deixo-as curiosas para saber como é que um objeto supera a sua função e a sua utilidade básica.
E o facto de estares a trabalhar para uma empresa de design americana, muda alguma coisa?
Com uma empresa como a Knoll, não estás apenas a ter em conta o nome, estás a ter em conta toda a história da empresa quando pensas nestes objetos. A Knoll começou nos anos 30, na América, vinda de uma era Jim Crow, muito racista na política e na sociedade americanas. [As leis Jim Crow foram leis estaduais e locais introduzidas no Sul dos Estados Unidos entre o final do século XIX e meados do século XX, que impunham a segregação racial]. E os afro-americanos ainda são, na prática, vistos como matéria-prima por muitas dessas pessoas. Somos essenciais para eles. Por isso, de certa forma, tivemos dificuldade em abordar o tema material, porque também éramos considerados parte desse material. Já se passaram décadas e décadas a tentar corrigir esta discrepância de relação. Há muitos artistas que eu sigo as pegadas, acho que há sempre uma forma de levar isto para a frente, e uma colaboração como esta é um exemplo disso mesmo. Ao trazer esse tipo de energia para dentro de uma galeria, essas ideias florescem, ao contrário do que acontece apenas numa loja de design, onde apenas pensas onde vais pôr isto na tua casa e não a importância do que se está a passar, entende? (sorri)
E de onde vêm estas novas peças, em específico? Sei que partiu dessa geografia pessoal...
Sim, eu sou do Texas, mas os meus pais são imigrantes nigerianos. Estava a fazer uma série de bancos para uma outra exposição quando me abordaram para fazer esta colecção para a Knoll. E o Jonathan [Olivares, designer industrial americano, vice-president sénior de design da Knoll] viu um banco que eu estava a fazer, e que mimetiza um tambor nigeriano que eu tinha encontrado, e coloquei-lhe uma fina camada de pele de ovelha por cima e deixei as tiras de couro caírem. Por isso, quando te movimentas, elas balançam um pouco. De muitas formas, estava a referenciar um pouco à minha herança no Texas, mas ainda mais à minha herança nigeriana. Sei que conhece a cultura africana das máscaras e das saias feitas de palha, e a forma como movem o corpo. As percussões são normalmente feitas com couro esticado no topo do tambor, por usei o cabedal esticado no topo das superfícies; é claro que não são um tambor, é uma ideia. Basicamente peguei no banco que o Jonathan me pediu para desenvolver e fiz os meus protótipos e depois chegou a mim a versão do que eles acharam que devia ser, que era muito mais elevada e muito mais luxuosa e precisa do o que lhes ofereci. Ok, vamos olhar para isto! Foi um processo muito orgânico. Tenho que dizer que apreciei muito não ter sido alterada a essência do projeto inicial, a maioria das ideias ainda estão na versão final.
Esse é o papel de uma marca que convida um artista... Mas deram-lhe total liberdade?
Sim, mas quando se tem de pensar na cadeia de abastecimento e em coisas desse género, é preciso ir ao cerne da questão, ao que realmente importa. Não me deram uma liberdade total, mas pediram-me para pensar uma pequena colecção a apartir de uma peça que já tivesse feito no passado. No fundo, foi uma liberdade para desenvolver qualquer coisa que já tivesse feito.
Se pudesse, o que teria feito mais?
Já estou a desenvolver os meus próprios produtos, mas acho que não posso contar ainda... [ri-se enquanto olha de soslaio para a representante da comunicação da marca]
Na sua prática artística, escolhe sempre este tipo de materiais mais orgânicos e muitos objectos que descartados pela sociedade de consumo. Porque escolhe fazê-lo assim?
É por necessidade, na verdade, não é uma escolha. É mais, o que é que eu posso fazer que esteja disponível? Acredito que, a determinado ponto, eu poderei fabricar tudo o que imagino, e desde o início até ao trabalho com metalúrgicos altamente qualificados e escultores de mármore, poder simplesmente brincar livremente com a forma. Mas, também é muito interessante ires à procura das formas que te atraem, e procurá-las no que já existe no mundo, e encontrar formas de manipulá-las. Também é mais económico (risos) e tem uma preocupação ambiental.Quem precisa de ter mais coisas? Não precisamos de mais coisas, necessariamente. Vamos sempre encontrar mais e mais inspiração no mundo, mas se conseguires fazê-lo com o que já existe...
O que também deve ser uma preocupação do design, até porque vivemos num planeta sobrelotado. Penso que consegue um bom equilíbrio entre a criatividade e experimentação, mas também tem o sentido prático e real da produção e da venda.
Estou constantamente a tentar manter tudo em equilíbrio, não quero inclinar-me demasiado para um dos lados. Tenho amigos que me dizem: “Dozie, já devias estar rico por esta altura.” Eu acho que devemos fazer os projectos de paixão, os que não dão dinheiro nenhum, que balaças com os projectos que dão dinheiro. É assim que te mantém feliz, sabes? (sorriso)
Fale-me de outros projectos pessoais em que esteja a trabalhar.
Sim! Estou a realizar a minha primeira longa-metragem, este ano. Vamos começar a gravá-la no fim de novembro, em Nova Iorque, Houston e Miami. Também ainda não foi totalmente divulgado na imprens, mas é com um grande estúdio de produção de Hollywood...
Começou por falar da sua história e da História, e está a realizar um filme, é isso que o traz à arte?
O que eu mais gosto na arte é de fazer exposições. Adoro a experiência de uma exposição, sei o que fez por mim e eu quero devolvê-lo ao mundo. Não sou propriamente obcecado pelos objectos em si mesmos, mas pela proximidade deste objecto a este objecto ou a esta imagem na parede, a forma como estão ligados. Toda a experiência de andar no espaço de uma galeria, ou num museu, e sentires que estás no mundo de alguém. É o que me traz mais satisfação. E penso que os filmes são outra forma de fazê-lo. Uma exposição conta uma história, talvez não literalmente e nem numa relação de um para um, mas guia-te numa viagem emocional. E isso interassa-me.
No caminho, também se encontra o próprio lugar. E as pessoas pensam e falam sobre o assunto.
Ou não, e confundes ainda mais onde é o teu lugar, mas fazes as pessoas pensarem e falarem sobre o assunto, sim. E é lindo quando o consegues fazer junto de pessoas que não vêm do mundo da arte, que são de fora e entram. Porque eu estou a fazer objectos funcionais, toda a gente se relaciona com uma mesa ou uma cadeira, mas se as convidares a participar nesta experiência particular, ou se a puseres junto à sua função.... Repare naquela caixa de luz ali no canto, confude de certa forma: o que é suposto fazer? Eu gosto dessa tensão, leva as pessoas a quererem saber mais.
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