Conversas

Missão impossível? "Como tentei tornar-me espião"

Outrora selecionados discretamente por professores das universidades de Oxford e Cambridge, os serviços de segurança procuram agora recrutas de todo o tipo, com competências linguísticas e tecnológicas. Harry Mount recorda as suas divertidas tentativas para se tornar espião.

Daniel Craig e Ana de Armas nas filmagems de `007 - No time to die´(2021)
Daniel Craig e Ana de Armas nas filmagems de `007 - No time to die´(2021) Foto: IMDB
20 de setembro de 2021

Espiar já não é o que costumava ser. No início de julho, o diretor do MI5 revelou que o método de recrutamento do "toque no ombro" já não se aplica. Longe vai o tempo em que fiáveis agentes de recrutamento, dissimulados por entre os professores das universidades de Oxford e Cambridge [conhecidas como Oxbrigde], selecionavam os candidatos que consideravam apropriados de entre os alunos universitários mais brilhantes.

Ken McCallum, diretor-geral do MI5, declarou que o método de seleção do seu serviço é agora o de "tudo é feito através de candidatura – não há escolhidos".

Receio que nem esta iniciativa me tivesse ajudado muito nos tempos em que eu quis ser um espião. Tentei a abordagem do "toque no ombro" – e também apresentei a minha candidatura. E falhei das duas vezes.

A primeira regra do Clube de Espiões costumava ser "Nunca peças para aderir ao clube de espiões". Esse foi o meu primeiro erro. Andei por todo o lado a pedir que me dessem um toque no ombro.

Em 1993, eu era aluno universitário na Magdalen College, faculdade da Universidade de Oxford, alma mater de Sir John Scarlett, diretor do MI6 no período de 2004-09. Havia um professor altamente distinto, de grande inteligência, que era conhecido por ser o recrutador de espiões na faculdade. Certa noite, durante o jantar numa das salas de refeições da faculdade, por entre os seus claustros do século XV, sentaram-me ao seu lado. A minha oportunidade tinha chegado!

Daniel Craig nas filmagens de`007 - No time to die´ (2021).
Daniel Craig nas filmagens de`007 - No time to die´ (2021). Foto: IMDB

Por entre a entrada e o prato principal, mantivemos uma conversa cordial, enquanto eu bebia champanhe e vinho branco e esperava desesperadamente pelo toque no ombro. Nada. Chegámos ao pudim para a sobremesa – e mais vinho branco. E nada.

Depois de um cálice de vinho do Porto e de mais um vinho de sobremesa, percebi que nada iria acontecer. "Peço imensa desculpa se estiver a abusar, mas, se houver qualquer possibilidade de vir a ser um espião, eu adoraria", disse-lhe.

"Que ideia tão boa", respondeu ele, com uma imensa gentileza. "Mas receio não ter qualquer forma de o ajudar".

Não se falou mais sobre o assunto – e continuámos a conversar, passando ao tema de como provar a existência de Deus.

Na manhã seguinte senti-me mortificado – e de ressaca –, mas continuava a persistir nos meus sonhos de espião. Fiz os exames do Serviço Civil, esperando que talvez pudesse um dia lá chegar. Passei e fui convocado para me deslocar a Whitehall [sede do governo britânico] para uma entrevista. Eu estava, por fim, do lado de dentro.

Na manhã da minha entrevista, entrei por uma porta baixa numa parede cinzenta de Whitehall, perto de Trafalgar Square – um cenário despretensioso e modesto como que saído diretamente de um dos romances sobre espionagem de John le Carré.

Ao longo de várias horas de entrevistas com personagens corteses e que falavam pausadamente, envergando fatos elegantes – mas não demasiado elegantes –, fui deixando pistas sobre o facto de querer servir o país na retaguarda. A carta de rejeição chegou alguns dias mais tarde.

Podem perceber por que motivo é que o método do toque no ombro deixou de existir. Simplesmente não era muito eficaz na seleção de grandes espiões e era muitas vezes bastante eficaz na escolha de indivíduos que acabavam por se revelar agentes duplos. O "indivíduo certo" muitas vezes acabava por se tornar o indivíduo errado. Kim Philby (Westminster School e Trinity College, Cambridge), Guy Burgess (Eton College e Trinity College), Donald Maclean (Gresham’s e Trinity Hall, Cambridge) e Anthony Blunt (Marlborough e Trinity) eram, todos eles, perfeitamente qualificados para o toque no ombro. E todos eles se tornaram agentes russos.

Durante décadas após a guerra, os serviços de segurança continuaram a entrevistar e a contratar algumas das piores pessoas possíveis para aquelas funções.

Jennifer Lawrence nas filmagens de `Operação Red Sparrow´ (2018).
Jennifer Lawrence nas filmagens de `Operação Red Sparrow´ (2018). Foto: IMDB

Quando foi expulso da Universidade de Oxford por chumbar nos exames, o lendário jornalista já falecido Auberon Waugh [cuja alcunha era Bron] ouviu o seguinte do seu pai, Evelyn: "Só há duas carreiras possíveis para um homem que foi mandado embora de Oxford. Ou te tornas professor ou espião".

Assim, Auberon Waugh escreveu a Sir Roger Hollis, um velho amigo de copos de Evelyn Waugh que, à época, era diretor do MI5. Pouco depois, foi enviado ao Conselho de Seleção do Serviço Civil – o mesmo organismo que me rejeitou 35 anos mais tarde. Bron também foi rejeitado e voltou a candidatar-se três anos depois. Conseguiu uma entrevista, apesar de o seu amigo Martin Dunne ter dado as piores referências possíveis sobre ele, insistindo demoradamente na "irresponsabilidade e imprudência" de Bron.

Bron acabou com qualquer potencial carreira de espionagem durante a sua entrevista, quando disse o quanto admirava os novos países independentes em África. "Não acha que talvez esses países tenham alguns problemas?", perguntou um dos entrevistadores. "Tenho a certeza de que eles os superarão", respondeu. "É que eles podem não ser tão bons como nós nas nossas competências específicas, mas são muito melhores do que nós noutras coisas", prosseguiu. "Que tipo de coisas?", perguntaram-lhe. A mente de Bron esvaziou-se. "Bom, subir às árvores", sugeriu, sem grande convicção. Pouco depois, começou a procurar emprego como professor.

Quando o entrevistei, em 1991, Bron disse: "Não faz sentido estar à espera de um toque no ombro. Talvez se deva expor o ombro. Andei por todo o lado a tocar em ombros, mas nada consegui. E podemos acabar por ficar com uma função bastante enfadonha, como estar atrás de uma secretária. E mesmo que consigamos mais, o nosso disfarce não nos permitirá parecermos bem sucedidos para o mundo exterior. Seremos, quando muito, um primeiro secretário bastante humilde de uma embaixada".

Nos velhos tempos do toque no ombro, o MI5 e o MI6 escolheram vezes sem conta o tipo errado de pessoas. Muitas das vezes, até os próprios recrutados achavam que não estavam talhados para aquilo. Um amigo meu recebeu há 20 anos um toque no ombro em Oxford, por parte do MI6 – mas, admite ele, "era perfeitamente claro para qualquer pessoa, ao fim de cinco minutos, de que teria sido uma hilariante má ideia".

Não quer isto dizer que os anúncios públicos de concursos para funções nos serviços de segurança funcionem melhor. Veja-se o caso de David Shayler, o altamente inadequado agente do MI5 que se juntou aos serviços de segurança depois de responder a um anúncio no The Observer em 1991. O anúncio dizia: "Godot não virá", numa referência à peça de teatro de Samuel Beckett ["À espera de Godot"], e pedia candidatos com bom senso, capacidade para escrever e com interesse nos temas da atualidade. David Shayler, ex-jornalista do The Sunday Times, pensando tratar-se de um anúncio para um emprego nos media, concorreu. E arranjou um emprego como espião, coisa que nem sequer tinha procurado ativamente ser – o tipo de cenário ilógico que o falecido John le Carré teria adorado.

Angelina Jolie nas filmagens de `Salt´ (2010).
Angelina Jolie nas filmagens de `Salt´ (2010). Foto: IMDB

Shayler foi condenado em 1997, nos termos da Lei dos Segredos Oficiais [Official Secrets Act] do Reino Unido, por ter passado documentos secretos ao The Mail on Sunday [jornal de domingo, publicado como complemento do Daily Mail] referindo que o MI5 tinha uma agenda anti-socialista e que possuía ficheiros sobre Peter Mandelson, Harriet Harman e Jack Straw. Foi condenado a seis meses de prisão em 2002. Mais tarde integrou um movimento que duvidava da veracidade dos ataques do 11 de setembro e, depois de um esgotamento, acabou a viver como "ocupa" e por vezes apresenta-se com o seu ‘alter ego’ travestido, que se chama Delores Kane.

Não admira, pois, que os serviços de segurança procurem atualmente um tipo diferente de pessoa.

A ligação à velha guarda desapareceu. Em vez disso, o GCHQ [Government Communications Headquarters; serviço de inteligência britânico encarregado da segurança e da espionagem e contraespionagem nas comunicações] procura um leque diversificado de pessoas com mentes viradas para a resolução de problemas e com competências técnicas e digitais. O MI6 quer pessoas que pretendam trabalhar no estrangeiro durante grande parte das suas vidas e que falem várias línguas. E é crucial que essas pessoas não queiram reconhecimento pelos seus feitos. O uso anterior de drogas é agora permitido aos candidatos, desde que sejam sinceros sobre o seu passado.

Ainda assim, estou certo de que você não irá melhorar as suas hipóteses de entrar no MI6 se se embebedar num jantar e disser a quem está ao seu lado que quer desesperadamente tornar-se um espião.

Harry Mount é autor de How England Made the English (Penguin)

The Telegraph/Atlântico Press

Tradução: Carla Pedro

Saiba mais MI5, Oxford, Cambridge, MI6, Sir John Scarlett, Trinity College, Auberon Waugh, Evelyn Waugh, David Shayler, espionagem, diplomacia, harry mount
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