Artes

Cartas privadas de Prémio Nobel a Jackie Kennedy vão a leilão

O objetivo de qualquer coisa considerada “colecionável” - um cartão de beisebol, um selo, um autógrafo - é que o seu valor se baseia em critérios definidos pelo mercado. Se não houver consenso sobre quais são esses valores, os cartões de beisebol são apenas papel laminado, e os selos são apenas, bem, também papel laminado.

Foto: Getty Images
08 de outubro de 2019 | Bloomberg

"É simples oferta e procura", afirma Judith Lowry, sócia da Argosy Book Store, de Nova Iorque, que também negoceia correspondência, autógrafos e lembranças. "Se há mais pessoas que querem cópias ou cartas, o preço aumenta."

No caso de uma coleção de cartas, manuscritos e diários do Prémio Nobel, John Steinbeck, prestes a ser leiloada, há um cálculo adicional: atualidade.

Álbum de fotos dos pais e da família de Steinbeck
Álbum de fotos dos pais e da família de Steinbeck

"Há um manuscrito autografado no qual Steinbeck fala sobre a América, conduta ética e funcionários públicos", diz Elyse Luray, especialista da Heritage Auctions que organizou o leilão programado para 24 de outubro. "E agora [nos EUA] fala-se em impeachment." As cartas de Steinbeck, continua, até contêm alusões à crise dos opioides. "Steinbeck vai para a Europa e vê todo mundo a tomar comprimidos para dormir, e aqui estamos a ter problemas com um tipo diferente de comprimidos."

Luray diz que a relevância deve facilitar a venda dos lotes. "Eles oferecem uma visão interna das coisas vividas por John e são pertinentes face ao que está a acontecer hoje."

A coleção pertencia à terceira esposa de Steinbeck, Elaine. Quando ela morreu em 2003, a família "pegou em tudo - folhas, papel de embrulho - e colocou num depósito", diz Luray. "Havia também algumas coisas num cofre."

Manuscrito assinado por John Steinbeck
Manuscrito assinado por John Steinbeck

O leilão ocorrerá apenas online, e nenhum dos lotes tem um preço estimado, apenas os lances iniciais.

O "warmup journal", um diário que Steinbeck escreveu entre 1946 e 1947 "da mesma maneira que um jogador de futebol aquece antes de um jogo", revela Luray, é de longe o mais caro, com uma oferta inicial de 10.000 dólares. Com o prémio e as taxas do comprador, este número chega aos 12.500 dólares.

Sobrecapa da primeira edição do livro “As Vinhas da Ira”
Sobrecapa da primeira edição do livro “As Vinhas da Ira”

Correspondência com os Kennedy

Outras cartas, particularmente entre Steinbeck e John e Jackie Kennedy, são particularmente procuradas, diz Luray.

Apenas uma assinatura de Steinbeck, explica, vale algumas centenas de dólares. "Mas colecionadores de verdade querem uma carta, e uma carta que diga alguma coisa. Talvez uma que revele algo que nunca se soube."

Se for esse o caso, a correspondência entre Jackie Kennedy e Steinbeck após o assassinato de JFK pode ser particularmente valiosa, se não para os colecionadores de Steinbeck, pelo menos para os fãs dos Kennedy.

"Eu pergunto-me se ele previu o seu fim. John Kennedy costumava falar de maneira vaga sobre ser assassinado", escreve Jackie Kennedy numa carta de seis páginas a Steinbeck de 22 de março de 1964, quatro meses após a morte do marido. "Eu nunca fiquei assustada - porque não conseguia conceber algo a acontecer assim com Jack - e ele era muito irónico em relação a isso. Agora pergunto-me se, no fundo, pensava que isto poderia acontecer."

Esta carta tem um lance inicial relativamente modesto, de 1.875 dólares.

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