Percorrendo as notícias e artigos de opinião das últimas semanas sobre Portugal, se excluirmos os temas políticos, prevalecem os temas da saúde e da estratégia de longo prazo (a propósito do Orçamento de Estado, bem como da ocorrência em urgências hospitalares), e o tema da qualidade da gestão ou ausência desta. E para esta última é desnecessário enquadrar como surge, porque o eco foi suficiente. Parece-me que todos eles podem ser abordados pela perspetiva da formação (ou da sua ausência) e do seu impacto.
Sobre a visão e a perspetiva do longo prazo, continuamos, na generalidade das situações, a planear e orçamentar a um ano ou dois. Não fazemos exercícios a dez ou mais anos. A inspiração que o virar da década podia trazer e a nossa experiência de várias décadas como profissionais, poderiam e deveriam inspirar-nos nesse sentido. Vamos olhar para o que queremos ou podemos ser no final da próxima década, em 2030? Ou em duas décadas, em 2040? Que ambição temos e que caminho precisávamos de fazer hoje para que isso se concretizasse? E o que nos pode limitar ou impedir de o atingir? Fazer este exercício é, certamente, um serviço à empresa e um serviço à economia e à sociedade. Porque não é feito, ou se é feito, não é partilhado? Falta-nos visão ou falta-nos capacidade de a partilhar? Ou ainda, falta-nos capacidade ou vontade para implementar aquilo que se aprende nos programas de formação?
Sobre os reparos e argumentos em prol da Qualidade da Gestão que já existe e que pode ser potenciada, acrescento a questão da retenção de talento nesse domínio, que Portugal não está a conseguir fazer. As escolas de gestão e economia em Portugal são boas e isso é reconhecido internacionalmente. Formam e preparam bem graduados que não estamos a conseguir atrair para as organizações no nosso país. O facto de estarmos num espaço mais global, onde a mobilidade é facilitada e a informação disponível, permite por um lado atrair alunos internacionais para as nossas boas escolas de gestão e economia, mas por outro, dar acesso aos nossos graduados a oportunidades de emprego noutros países.
O talento sai de Portugal por três razões: i) porque não têm colocação, isto é, porque o país é pequeno ou, dado o contexto económico, há menos empregos disponíveis; ii) porque os salários líquidos pagos lá fora são superiores (salários brutos são superiores e carga fiscal é inferior); iii) ou simplesmente porque preferem ter experiências diferentes de conhecimento do mundo e de desenvolvimento pessoal. As razões mais frequentes são as duas primeiras. A vontade de conhecer mundo tende a ser respondida com programas de intercâmbio ou estágios internacionais, anos de paragem ou até primeiras experiências profissionais. Mas raramente justificam a permanência profissional no exterior do país. E aqui devemos ver um alerta. Que políticas estamos a perspetivar para permitir ao talento português ficar em Portugal ou para atrair outro talento estrangeiro para Portugal? Se o governo cria o incentivo ao retorno, está a incentivar a uma experiência profissional fora do país com uma permanência mínima (conforme o incentivo definido). Com uma probabilidade grande de uma parte desse talento não regressar. Eu vejo os jovens alumni a comparar o nível de salários a que tem acesso cá e fora (basta passar a fronteira - a uma hora de avião do Porto ou Lisboa) e a carga fiscal associada, para níveis de vida não muito diferentes. Isso justifica as idas e justifica o não retorno.
O nosso mercado é pequeno em termos de oportunidades. Essa é a parte do problema que não vai mudar, apesar de que outros mercados pequenos atraem o talento português, de que são exemplo a Suíça, o Luxemburgo, a Bélgica e a Holanda. Mas mercados e economias maiores, proporcionam mais oportunidades e mais empregos, para diferentes perfis de talento. E sendo nós pequenos, continuaremos sempre a exportar talento, nomeadamente, em áreas como a ciência, as artes e o desporto.
Temos talento e sabemos desenvolvê-lo, mas não o estamos a usar nem todo o seu potencial. Estamos a exportar. Não seria mal se conseguíssemos estar neste mesmo mercado global - importando também talento de valor para as empresas e organizações em Portugal. Isso permitiria repor com diversidade, o que sabemos traz também valor na criatividade e nas decisões. Não o estamos a fazer porque isso requer uma maior utilização do inglês nas empresas e competitividade dos salários líquidos.
Quando olhamos para a formação superior na área da economia e gestão perspetivamos: potencial perda de talento graduado de licenciatura; que não estamos a substituir por retenção de graduados de mestrado internacionais; numa cultura empresarial onde se investe pouco em formação e onde esta deixou de ser considerada nos incentivos fiscais.
Para conseguir perspetivar Portugal mais competitivo a 10 anos, não vejo outra forma que não seja pela via da educação e da formação. Na aposta, já, no desenvolvimento das pessoas por parte das empresas e organizações. No investimento em recrutamento de talento português e estrangeiro, no imediato e nos próximos anos. No investimento das famílias em formação.
É urgente olhar para este tema.
Bom ano!
Católica Porto Business School

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